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AUGUSTO DE CAMPOS E A INFOXICAÇÃO EM TEMPOS DE IA / JOÃO SCORTECCI

Um dia de cada vez. Lendo sobre o uso e aplicação de ferramentas de Inteligência Artificial na literatura, encontrei algo do outro mundo – literalmente. Já chegamos lá? Talvez. Estava trabalhando numa apresentação para a Abigraf – Associação Brasileira da Indústria Gráfica, intitulada “O produto livro – Das responsabilidades da Indústria Gráfica”, quando dei de cara com um artigo do outro mundo, em que se dizia que um centro espírita estava usando IA, para se comunicar com pessoas que já haviam morrido. Conversas do além, algo assim. Gosto do assunto – muito – o que me obrigou a ler o artigo inteiro. Faz parte. Aqui com as almas penadas da literatura: já imaginaram incorporar uma identidade IA? Receber um mix de escritores malditos, concretistas, modernistas e parnasianos? Doideira! Verdadeira infoxicação literária. Descobri, ainda, que a palavra "infoxicação” é a junção das palavras "informação" e "intoxicação", conceito concebido pelo físico espanhol Alfons Cornellade, para designar a situação em que uma pessoa tenta receber e analisar um número de informações muito maior do que seu organismo é capaz de processar. Dizem – não sei se é verdade – que um ser humano tem a capacidade máxima de ler 350 páginas por dia, caso faça apenas isso o dia inteiro! Desconfio. Já o volume de informações que recebemos diariamente pela Internet é de cerca de 7.355 gigas, o equivalente a bilhões de livros! Lendo sobre os 94 anos do incrível escritor Augusto de Campos e o lançamento do seu livro “Pós Poemas”, algo me chamou atenção – além da conta – no belíssimo texto escrito pelo jornalista Claudio Leal. No olho do texto, chamado de resumo: “Augusto de Campos, principal escritor brasileiro vivo!”. Algo assim. Augusto merece todos os elogios e imortalidade. O que achei estranho – Drummond já havia alertado sobre o perigo – foi a afirmação de se tratar do principal escritor brasileiro vivo. Não precisava. Poderia ser algo assim: “Um dos principais...” Todos os dias perdemos escritores incríveis, maravilhosos e imortais. Conhecidos e desconhecidos. Precisava dizer isso? Talvez não. E mais: o assunto do centro espírita comunicando-se por IA com escritores mortos promete briga, confusão e inveja. Ou não? O papel aceita tudo! O inferno e o céu também. No mais, vou comprar o livro do poeta Augusto de Campos. E, se possível, com autógrafo.   

João Scortecci  








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POETAS BISSEXTOS – “ESTADO DE GRAÇA DE RARO EM RARO” / MARIA MORTATTI

“Bissexto” (do latim bis sextum) é a denominação do ano civil com um dia extra, 29 de fevereiro, acrescentado de quatro em quatro anos ao calendário gregoriano. Foi a solução matemática criada no século 45 a.C. pelo astrônomo Sosígenes para compensar as 6 horas que sobram a cada ano de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos, tempo exato do movimento de translação da Terra em torno do Sol. 

Em 1942, a palavra foi trasladada pelo poeta Vinícius de Moraes (19.10.1913 – 09.07.1980) em artigo sobre poesia brasileira, na revista argentina Sur, de 1942, para se referir em sentido figurado aos poetas “que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos – poetas sem livros de versos – bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados”. 

Com base nessa translação semântica, o poeta Manuel Bandeira (09.04.1886-13.10.1968) imortalizou a expressão “poetas bissextos” em sua Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos (Zélio Valverde, 1946). Assim explica no prefácio: 

Não procurem a expressão nos dicionários, porque não a encontram. Pelo dicionário, bissexto só há ano, e é o que tem um dia a mais, o que ocorre de quatro em quatro anos. Poeta bissexto deve, pois, chamar-se aquele em cuja vida o poema acontece como o dia 29 de fevereiro no ano civil [...] bissexto é todo o poeta que só entra em estado de graça de raro em raro.”; “nego que a circunstância de não publicar os poemas em livro ou em revistas e jornais seja característica essencial do bissexto. O essencial é a produção rara.”; “O bissexto, na sua relativa impotência criadora, tem, às vezes, achados que enchem de inveja todo o ‘genus irritabile’. 

O organizador reuniu mais de uma centena de poemas escritos por pessoas que na época exerciam diferentes atividades – escritores, advogados, engenheiros, médicos, sociólogos, professores, jornalistas, padres, pintores. Entre eles estavam: Afonso Arinos de Mello Franco, Aníbal Machado, Dante Milano, Euclides da Cunha, Joaquim Cardozo, José Auto, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Ismael Nery, Joanita Blank, Leopoldo Brígido, Lucila Godoi, Lucilo Bueno, Luís Aranha, Maria Clara Machado, Maria Helena, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Pedro Dantas, Pedro Nava, Raimundo Magalhães Júnior, Rodrigo M. F. de Andrade, Rubem Braga, Sérgio Buarque de Hollanda.

Nem todos eram “bissextos autênticos”, como o organizador adverte, mas optou por incluí-los para não perder poemas de qualidade. Nem todos eram ou se tornaram contumazes – epíteto sugerido por Paulo Dantas e aceito por Bandeira, como antônimo de bissextos. Vinte e quatro anos depois, na 2ª. edição da Antologia... (Organização Simões, 1964), Bandeira incluiu outros poetas que, nas décadas seguintes, passaram a publicar de modo contumaz, como H. Dobal e Odylo Costa, filho. Provavelmente pelo mesmo motivo, outros, como Joaquim Cardozo e Paulo Mendes Campos, foram excluídos dessa edição. Alguns, ainda, tornaram-se “imortais” quando posteriormente eleitos, pelo conjunto da obra em outros campos e gêneros literários, como membros da Academia Brasileira Letras. 

Manuel Bandeira – poeta contumaz – tornou-se "imortal" em 1940. A Antologia de poetas bissextos contemporâneos, publicada naquele ano, tornou-se um clássico – teve outras reedições, inspirou outras antologias e provavelmente outros poetas contumazes, ou não. E sua solução poética para designar aquele "em cuja vida o poema acontece como o dia 29 de fevereiro no ano civil" foi consolidada em dicionário: “quem exerce pouco determinada atividade (ex.: poeta bissexto)”. 

Maria Mortatti 

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CENA BRASILEIRA NA FOTOPTICA-BRASILIENSE / MARIA MORTATTI

A revista Novidades Fotoptica lançada em 1953 e publicada até 1987, com alterações na periodicidade, formato e conteúdo, foi uma das iniciativas de Thomaz Farkas (17.10.1924-25.03.2011), fotógrafo, cineasta e empresário de origem húngara radicado na cidade de São Paulo. Reconhecido como um dos pioneiros da moderna fotografia e do filme documentário no Brasil, ao lado de grandes cineastas do Foto Cine Clube Bandeirantes, Farkas assumiu, após a morte do pai em 1960, a direção da Fotoptica, primeira empresa especializada em equipamentos fotográficos no País. Com formato de jornal, Novidades Fotoptica publicava anúncios de produtos do ramo, divulgação de livros e concursos, artigos sobre técnica fotográfica e audiovisual, exposições, entre outros. A partir de 1970, com formato de revista, passou a publicar também textos críticos e ensaios fotográficos.

Não menos importante na cena cultural e literária brasileira foi a Editora Brasiliense, fundada em 1943 na cidade de São Paulo, por reconhecidos intelectuais e escritores brasileiros: Caio Prado Júnior, José Bento Monteiro Lobato, Arthur Neves, Leandro Dupré a Maria José Dupré, cuja casa foi utilizada como primeira sede da editora. A Brasiliense publicou obras fundamentais da literatura e cultura brasileira e internacional, caracterizando-se pelo prestígio de seus autores e como foco de resistência ao Estado Novo e à ditadura militar pós-1964. A partir de 1975, sob a direção de Caio Graco Prado (1931-1992), filho de Caio Prado Júnior, foram lançadas coleções inéditas, como a Primeiros Passos, que tiveram sucesso editorial duradouro, com vendas de milhares de exemplares nos anos 1980. A editora também lançou a Revista Brasiliense, com circulação entre 1955 e 1964, e Leia livros, dirigida por Caio Graco Prado e Cláudio Abramo, com circulação entre 1978 e 1984. A Livraria Brasiliense, na Rua Itapetininga, no centro da cidade de São Paulo, tornou-se referência para encontros de intelectuais, escritores, manifestações, debates e exposições.

No final do ano de 1979, Fotoptica e Editora Brasiliense, reunindo expertises, promoveram o Concurso Cena Brasileira, com ensaios de textos e fotos. Os selecionados foram publicados na revista Novidades Fotoptica, n. 83, de 1978. No editorial consta comentário sobre os ensaios, que revelam a visão de uma parcela significativa da população, na moderna cena fotográfica e literária e cultural e no contexto político da época: “Não importa onde esteja a cena brasileira [...] o que interessa é que muitos jovens brasileiros querem encontrar os vestígios de uma realidade sem os retoques do estúdio”. Como “nos tempos do movimento universitário, a fotografia documento sem ranço de qualquer academicismo sociologismo ou antropologia [...] A unidade de palavra e de imagem muito pouco estimulada na maior parte de nossas situações ganha em vigor e expressão.”

Além da publicação na revista Novidades Fotoptica, os premiados no concurso tiveram a oportunidade de expor suas fotos e poemas em varais estendidos na calçada em frente à Livraria Brasiliense. Lá estava meu poema “Rapsódia brasileira: queimação da cana” acompanhando cinco fotos de Karlos Magnani. Aquela cena da estreia pública da jovem poeta numa paulistana manhã de sábado ficou documentada nas páginas da revista, guardada no acervo pessoal e preservada na memória desta brasileira. 

Maria Mortatti


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MULHERES IMPRESSORAS, ELIZABETH MALLET E OS ÚLTIMOS DISCURSOS MORIBUNDOS / JOÃO SCORTECCI

A biografia da gráfica e livreira inglesa Elizabeth Mallet (1672-1706) é incrível. Pesquisando sobre mulheres impressoras e editoras na Inglaterra, soube do The Daily Courant, primeiro jornal diário inglês, fundado em 11 de março de 1702. O diário consistia em uma única página, com anúncios no verso. No primeiro número do jornal, Elizabeth Mallet declarou que pretendia publicar apenas notícias e não acrescentaria nenhum comentário próprio, supondo que seus leitores tivessem "bom senso” e “discernimento” para julgar e analisar os fatos. Anúncios somente no verso do jornal, prova do que dizia de não permitir interferências ou influências de anunciantes, políticos e poderosos. A ideia de separar as notícias dos anúncios foi tentada – ao longo do tempo –, por diversos jornais e revistas do mundo todo, sem sucesso. Os anunciantes simplesmente não aceitam! Exigem que seus anúncios ocupem espaços estratégicos e pagam por isso, seguindo os critérios de localização do anúncio no impresso, seu tamanho e relação proativa com a manchete do dia. Depois de menos de dois meses, Elizabeth Mallet vendeu o The Daily Courant para Samuel Buckley. O diário durou até 1735, quando foi fundido com o Daily Gazetteer. Elizabeth Mallet e seu marido, David Mallet, durante as décadas de 1670 e 1680, dominaram o comércio de discursos impressos proferidos por prisioneiros condenados antes da execução em Tyburn, feudo no condado de Middlesex, sudeste da Inglaterra. Os "últimos discursos moribundos” são as últimas palavras de uma pessoa antes da morte ou quando a morte se aproxima. Os registros são mais comuns do que parecem, principalmente na Europa e nos Estados Unidos da América. É comum, também, que condenados à pena de morte, no dia da sua execução, tenham direito a escolher o que desejam comer na sua última refeição. “O último pedido!” David, o marido de Elizabeth Mallet, morreu em 1683. No seu lugar, na gerência da gráfica e dos negócios, assumiu David, seu filho. O moço não tinha jeito para o negócio e o empreendimento acabou falindo.

Antes da invenção da imprensa, os livros eram feitos de páginas escritas por escribas, eram caros e luxuosos, privilégio apenas para religiosos e homens da classe alta. Um livro podia levar até dois anos para ser concluído. O alemão Johannes Gutenberg, por volta de 1450, inventou a prensa de tipos móveis, o que possibilitou a produção em massa de livros. A impressão naquela época era trabalho pesado, árduo e exigia força física. Mesmo assim, muitas mulheres conseguiam fazer todos os serviços necessários para produzir um livro. Aprendiam o ofício com seus pais ou maridos. De 1500 até 1600, as mulheres representavam 10% da força de trabalho de impressão, em Londres. Antes da abolição do sistema de guildas – associações de artesãos e comerciantes que controlavam e supervisionavam a prática de um ofício ou comércio em determinado território ou região –, a única maneira de uma mulher se tornar empresária das artes gráficas era herdar um negócio de seu falecido marido, já que o privilégio da guilda – patente e autorização – era concedido, por costume, à viúva de um membro da associação. A Inglaterra seguiu o costume europeu de permitir que as viúvas herdassem o privilégio da guilda, até que se casassem novamente. Sabe-se que 34 viúvas eram ativas como impressoras e editoras de livros em Londres, entre 1641 e 1660. A lista de viúvas empresárias gráficas de sucesso é grande: Elizabeth Mallet, Elisabeth Pickering, Mary Clark, Hannah Allen, Elinor James, Ann Lea, Anne Dodd Ann Ward, Martha Gurney, Elizabeth Jackson, Eleanor Lay e Sarah Roddam. Na Inglaterra, a maioria das gráficas herdadas por mulheres, viúvas de impressores gráficos, progrediram e duraram por décadas. Algumas estão, até hoje, em pleno funcionamento, imprimindo jornais, revistas e livros.

João Scortecci

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“LE CARNET DES NUITS”: AUTORRETRATO DE MARIE LAURENCIN COMO POETA / MARIA MORTATTI

Marie Laurencin (Paris, 31.10.1883 – 08.06.1956) ficou mais conhecida como “musa de Apollinaire”, poeta com quem manteve turbulento relacionamento amoroso por seis anos, e “la fauvette”, dada sua proximidade com círculos parisienses de artistas da vanguarda da arte moderna do início do século XX. Mas foi em prosa e verso que a conheci, quando ganhei de presente a edição francesa de 2022 de seu livro Le carnet des nuits (Diário das noites). Ao folhear o exemplar, saltou-me aos olhos o prenúncio da autora em um dos textos, instigando-me a adentrar na história dessa mulher, por meio de biografias e estudos recentes sobre sua obra, e conhecer as aventuras do talento da pintora, gravurista, ilustradora, cenógrafa, que registrou em verso e prosa, não apenas um autorretrato, mas também um testemunho de seu tempo.   

Le carnet des nuits foi publicado na Bélgica, em 1942, durante a ocupação nazista na França. Em 1956, ano da morte de Laurencin, foi publicada em Genebra a segunda edição. Em 2022, foi publicada na França, pela editora La Coopérative, “edição completa com notas e posfácios dos editores”. O livro é ilustrado com três gravuras e 37 textos curtos, 12 em prosa e 25 em verso, em estilo “surrealista” – conforme alguns críticos. É acompanhado de um anexo, com três poemas de Louise Lalanne, pseudônimo de Apollinaire, publicados na revista francesa Les Magres, em 1909. Dois desses poemas são de autoria de Laurencin, que os cedeu ao poeta para que ele os publicasse com seu pseudônimo. O livro é composto de poemas, diários íntimos e lembranças. Além de evocar e testemunhar o período em que ela participou da vanguarda modernista francesa, “traça a evolução interior dessa mulher extraordinária desde a infância, com uma fantasia e lucidez que provocam a imaginação [...] e  completam e enriquecem o conhecimento de sua obra pictórica: pode-se defini-lo como um autorretrato  da artista como poeta”. 

Sem vocação para o magistério, como desejava sua mãe, Laurencin trocou as aulas do Liceu Lamartine por aula em ateliê de pintura em porcelana e depois na Academia Humbert, onde conheceu, entre outros artistas, o pintor Georges Braque, fundador do cubismo, que a apresentou ao pintor Pablo Picasso. Por meio deles, em 1907 conheceu o poeta Guillaume Apollinaire (26.08.1880 – 09.11.1918), que a ela dedicou poemas como “Marie”, “Crépuscule”, “Le pont Mirabeau” e “Zone”, em seu livro Alcools (1913). Embora não tenha se filiado ao fauvismo e ao cubismo, principais movimentos artísticos de vanguarda modernista da época, mantendo estilo estético singular na representação da identidade feminina, com formas suaves e curvilíneas, Laurencin participou de círculos parisienses ao lado de artistas e escritores famosos, como Max Jacobs, André Derain, Henri Matisse. Após se separar de Apollinaire, ela se casou com o pintor alemão Otto von Wätjen, exilaram-se na Espanha durante a Primeira Guerra Mundial, retornaram a Paris, divorciaram-se. Laurencin conheceu outros artistas e escritores, teve relacionamentos amorosos com homens e mulheres, participou de círculos neoclássicos lésbicos, ilustrou 80 livros – entre os quais de André Gide, Lewis Carrol, Somerset Maugham –, produziu cenários e figurinos para o balé russo Les Biches, com música de Francis Poulenc e coreografia de Bronislava Nijinska, e para a Comédie Française, pintou retratos de personalidades parisienses, como Coco Chanel. Durante a Segunda Guerra Mundial, teve o apartamento confiscado pelos nazistas, recolheu-se em apartamento mais modesto, sua saúde se fragilizou. Morreu de parada cardíaca, em 1956, com 72 anos de idade, deixando uma biblioteca de 5000 itens. Em seu testamento, pediu que fossem colocadas em sua mão uma rosa branca e uma carta de amor de Apollinaire. 

Apesar do reconhecimento da crítica e do público nas décadas de 1920 e 1930, sua obra ficou relativamente esquecida na França e na história canônica da arte. Mais recentemente, vem despertando novo interesse de críticos, estudiosos e historiadores da arte, conquistando novos admiradores e crescente notoriedade póstuma. Em 1974, o poeta anarquista francês Léo Ferré musicou o poema “Marie”, de Apollinaire. Em 1975, o cantor francês Joe Dassin a mencionou na canção L'été indien. Em 1979, coleção de suas obras foi comprada em leilão pelo empresário japonês Masahiro Takano e expostas no Museu Marie Laurencin de Tokio – que encerrou atividades em 2019. No Brasil, seu quadro Guitarrista e duas figuras femininas (1934) integrou o primeiro lote de quadros quando da inauguração, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo. Suas obras constaram também de exposições coletivas de artistas estrangeiros em galerias brasileiras, nos anos 1973, 1995 e 2002. 

Nas últimas décadas, a artista vem sendo “redescoberta” também em estudos acadêmicos e catálogos de exposições, que possibilitam ampliar a compreensão de seu lugar na história das artes plásticas e da literatura de autoria feminina. Em 2011, foi lançada sua biografia em inglês, escrita por Bertrand Meyer-Stabley; em 2013, sua obra foi exposta no Musée Marmottan Monet, em Paris, entre outros exemplos. Também vem sendo conhecida e divulgada sua produção como escritora em prosa e verso: correspondência inédita, prefácio, textos em revistas e Le carnet des nuits, pelo qual a conheci. Quase 70 anos após a morte, sua obra continua ecoando, provocando reflexões e contribuindo para a compreensão do lugar, muitas vezes esquecido, das mulheres na história da arte e da literatura e para lembrar que “... ter talento é uma aventura que vale a pena...”. (Marie Laurencin)

Maria Mortatti – 08.03.2025

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Obs.: As informações sobre vida e obra de Marie Laurencin sintetizadas neste texto foram extraídas do posfácio da edição francesa de 2022 de Le carnet des nuits, da Wikipedia, de artigos e de catálogos de galerias e exposições disponíveis on-line, principalmente Casa Museu Eva Klabin e Pallant House Gallery.  Os trechos do livro citados em português foram traduzidos por mim.  

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FERNANDO GASPARIAN: ALGUNS ANOS DEPOIS! / JOÃO SCORTECCI

Conheci o editor e livreiro Fernando Gasparian (1930-2006) e o seu filho caçula Marcus, no final dos anos 1990, na gestão do editor e gráfico Altair Ferreira Brasil (1995-1999), então presidente da Câmara Brasileira do Livro, na cidade de São Paulo. Alguém teria dito: “Gasparian é um doido de pedra!”. Algo assim. Gosto dos doidos. Tenho por eles profunda admiração e respeito. Descobri, com o tempo, tratar-se de uma pessoa querida por muitos, respeitada, influente no mercado editorial brasileiro. Foi editor das obras de Fernando Henrique Cardoso, Érico Veríssimo, Celso Furtado, Antônio Callado, Oscar Niemeyer, Francisco Weffort, Paulo Freire e outros. Ex-deputado federal e empresário do ramo têxtil, Gasparian fundou nos anos 1970 o jornal “Opinião” (1971-1975) e a revista “Argumento”, focos de resistência à ditadura militar brasileira. Em 1973, assumiu a editora Paz e Terra, referência no meio acadêmico nas áreas de filosofia, sociologia e ciência política, fundada em 1965, pelo editor Ênio Silveira, também fundador da Civilização Brasileira. Em 1978, com sua esposa Dalva Funaro, Gasparian criou a Livraria Argumento, especializada em livros sobre política, economia e artes. A livraria funcionou inicialmente na cidade de São Paulo, na Rua Oscar Freire, e depois mudou para a cidade do Rio de Janeiro, no Leblon, onde funciona até hoje. Quando editor da Paz e Terra, Gasparian recebeu, das mãos do político e diplomata suíço Jean Ziegler, os originais do livro “Pedagogia do Oprimido”, do educador e filósofo, patrono da educação brasileira, Paulo Freire (Paulo Reglus Neves Freire, 1921-1997), na época exilado no Chile e também perseguido pela ditadura militar brasileira. Mesmo contra tudo e todos, num ato de coragem – loucura, talvez – Gasparian publicou, em 1974, o livro e o divulgou abertamente pelo País. Até hoje, “Pedagogia do Oprimido” continua popular entre educadores no mundo inteiro e é um dos fundamentos da pedagogia crítica com mais de um milhão de cópias vendidas. É o terceiro livro mais citado em trabalhos acadêmicos da área de ciências sociais, em todo o mundo. No filme "Ainda estou aqui" – Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2024, com Fernanda Torres, Selton Mello e grande elenco, dirigido pelo premiadíssimo Walter Salles Júnior –, Fernando Gasparian, Dalva e Helena e Laura, filhas do casal, são personagens presentes na história.  Fernando Gasparian faleceu em 7 de outubro de 2006, aos 76 anos de idade. 

João Scortecci


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IZUMI SUZUKI E A QUÍMICA OXIMEL / JOÃO SCORTECCI

Fui um péssimo aluno de Química no colegial. Interesse zero! Lembro-me que apenas uma vez em sala de aula um assunto se ocupou de mim. Foi uma aula sobre combinação, fenômeno que ocorre quando substâncias químicas interagem e formam novas substâncias. Gostei das possibilidades. Igual à poesia! Até hoje guardo na cabeça as leis da combinação química e suas interações literárias. Anotei a ideia no meu diário e, anos depois, usei o conceito para escrever o livro “O Eu de Mim - Poema ecológico”, obra original do poema vencedor do IX Prêmio Itajaí de Poesia 1982. No poema, versos sobre química oximel, mistura de mel, vinagre e penas de gralha azul, remédio para as feridas da natureza humana. Talvez tenha sido o único livro que escrevi sobre ecologia, a destruição do planeta, o homem predador, covarde, algo assim. De lá para cá, as coisas só pioraram. Sou um apaixonado pelos livros de ficção científica, da combinação oximel: ciência, tecnologia e imaginação, narrativas sobre o futuro. Tenho uma lista de escritores do coração: Isaac Asimov, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Júlio Verne, George Orwell e outros. Hoje conheci a escritora e atriz japonesa Izumi Suzuki (1949 -1986), autora do livro “Tédio terminal”, obra publicada pela DBA editora. Nesse livro, escrito entre os anos 1970 e 1980, Suzuki, visionária, escreveu sobre “cérebro podre”, a temática do vício em telas e tecnologia, estados totalitários, fluidez de gênero e jovens assexuados. A expressão está associada a: consumo de informações simples ou de baixa qualidade, rolagem de feeds on-line, busca por notícias negativas e angustiantes e afastamento de atividades e conteúdos mais complexos. O termo “cérebro podre” foi usado pela primeira vez em 1854 por Henry David Thoreau, no livro "Walden". O autor criticava a falta de valorização de ideias complexas e comparava o "brain rot" ao apodrecimento das batatas na Inglaterra, referindo-se à "Grande Fome da Batata", que ocorreu na Europa na década de 1840, causada por uma doença – conhecida como míldio, provocada pelo fungo Phytophthora infestansque – que contaminou as batatas e as tornou impróprias para o consumo. Izumi Suzuki cometeu suicídio em 1986, aos 36 anos de idade, enforcando-se em casa. Assim é a poesia! 

João Scortecci
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O “TOUR” DA FRANÇA POR AUGUSTINE FOUILLÉ / MARIA MORTATTI

A escritora francesa Augustine Fouillé (31.07.1833 – 08.07.1923), de pseudônimo G. Bruno (inspirado no nome do filósofo italiano) é autora de quatro manuais de leitura escolar: Francinet (1889), Les Enfants de Marcel (1887), Le tour de la France par deux enfants (1887), Le Tour de l’Europe pendant la guerre (1916). Le tour de la France..., o mais conhecido, foi utilizado para ensino de leitura, escrita, história, geografia e moral na escola primária francesa. Teve sucesso imediato e sucessivas edições com atualizações e adaptações ao sistema educacional francês. Marcou o ensino primário no contexto da Terceira República Francesa (1870-1940), foi adotado até ao anos 1950 e ainda é editado. 

Nesse manual, a narrativa em forma romanceada, organizada em 121 capítulos e ilustrada com 200 gravuras, desenvolve-se em torno das aventuras vividas pelos protagonistas, André (14 anos) e Alfred (7 anos), jovens irmãos e órfãos que partem da região da Alsácia-Lorena ocupada pelos alemães depois da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), para encontrar o tio em Marseille, cumprindo o pedido do pai antes de morrer. Durante a viagem pelas províncias francesas, aprendem a importância da educação, do trabalho, dos saberes práticos, da diversidade cultural e linguística, dos símbolos patrióticos, das formas de vida e atividades desenvolvidas no país, reconhecendo-o como nação e pátria. Por meio das lições do manual, inculcavam-se o sentimento de unidade nacional, a moral laica – em substituição à moral religiosa das edições do século XIX – o lema republicano “liberdade, igualdade e fraternidade” e noções “controversas”, tais como a que, entre as raças humanas, a branca apresentada é a mais perfeita em relação às outras.

“Este verdadeiro ‘livrinho vermelho da República’ com o seu tom paternalista promove as obsessões do novo regime: o trabalho, os valores tradicionais e o colonialismo”, na avaliação do jornalista francês Vincent Bresson. Apesar das críticas relativas às mudanças políticas e sociais, ao longo do século XX esse clássico pedagógico foi objeto de adaptações na França e em outros países – em livros, filmes, séries e programas de TV e rádio – e serviu de modelo para autores de livros escolares, como, no Brasil, ocorreu com Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bonfim – inspirado também em Cuore (1886), do italiano Edmondo De Amicis –  sucesso na escola primária nas décadas iniciais do século XX, tornando-se um clássico do gênero, que formou gerações de brasileiros. 

Diferentemente do filósofo italiano que inspirou seu pseudônimo, Augustine Fouillé optou, não por desafiar, mas por se engajar, ela mesma, no ideal republicano e nacionalista de sua época e propagá-lo por meio do poderoso e exemplar instrumento pedagógico que criou, no qual seu país se apresentava como a utopia de uma grande nação e no qual cada estudante deveria se engajar. Com o sucesso de seu tour da França, imortalizou-se com a inscrição de suas lições nas mentes de gerações de estudantes e de seu nome na história da educação francesa e ocidental.

Maria Mortatti  


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A POÉTICA MARGINAL DA “GERAÇÃO MIMEÓGRAFO” NO BRASIL / MARIA MORTATTI

“Poesia marginal” é a denominação atribuída à produção da “Geração mimeógrafo”, constituída de novos poetas brasileiros que, nos anos 1970, durante a ditadura militar pós-1964, escreviam e divulgavam seus poemas “à margem”. Para escapar da censura do regime político e das dificuldades de inserção no meio editorial, recusavam modelos e sistemas literários, acadêmicos, intelectuais e editoriais. Não tinham um projeto ou programa literário. Com liberdade poética, diversidade etária e regional, faziam poesia “coletiva” sobre assuntos do cotidiano, em linguagem coloquial e informal, com tom de improviso, paródias e apropriação de poetas canônicos, protesto políticos contra o regime e contra a crítica literária oficial. Confeccionavam artesanalmente textos e ilustrações em mimeógrafo e buscavam contato direto com o público, expondo sua poesia em muros, praças, ruas, teatros, bares, universidades, eventos e vendendo por preço baixo. 

Apesar da atitude de recusa, transgressão, independência e resistência ao regime autoritário da época, alguns representantes dessa geração se destacaram já na época pela qualidade estética, especialmente por meio da inclusão na antologia 26 poetas hoje (1975), organizada por Heloísa Buarque de Hollanda. Alguns deles tiveram seus poemas publicados e distribuídos por editoras comerciais, e suas obras vêm sendo reunidas, publicadas e estudadas, já com consistente fortuna crítica. Nos anos 1980, apresentei aos meus alunos de ensino médio poetas dessa geração, que então tinha lido e apreciado: Ana Cristina César, Cacaso – ambos falecidos precocemente, além de outros dessa geração, como Torquato Neto, Waly Salomão – e Paulo Leminski. 

O primeiro que me chegou às mãos foi o livro A teus pés: poesia/prosa, de 1982, Ana Cristina César (Rio de Janeiro, 1952-1983), que além de poeta, com quatro livros publicados em vida, dedicou-se às atividades de crítica literária, jornalista e tradutora, com dezena de publicações. No poema “Este livro” me apresentou o manifesto poético de Ana C..: “Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio [...]”. Nesse e demais livros seus anteriores e posteriores, reunidos na antologia Poética (Companhia das Letras, 2013,), conheci melhor sua poesia, que, apesar da aparente “simplicidade”, é marcada por “avançada pesquisa poética” com uma “estratégia de linguagem como desvio contínuo, fratura, abertura para múltiplas falas, testemunho do inconcluso e do inacabado”, nas palavras do crítico Ítalo Moriconi.

Antônio Carlos de Brito, o Cacaso (Uberaba/MG,1944; Rio de Janeiro,1987), poeta, professor universitário e letrista de música popular brasileira, para alguns críticos literários é o tutor da “poesia marginal”. Seu livro Beijo na boca e outros poemas (1975) foi o que primeiramente li e apresentei em aulas. Em especial, recordo-me de dois poemas apreciados em atividades de leitura: “Lar doce Lar”: “Minha pátria é minha infância / Por isso vivo no exílio.” E “Estágio do retrato”, em que o poeta, inspirado em Cecília Meireles, pergunta: “Nos olhos de quem terei perdido a minha face?” O conjunto de sua produção – seis livros publicados em via e poemas inéditos, e 60 letras de música –, publicado em Poesia completa (Companhia das Letras, 2020), representa também ideias e dilemas de sua geração, “impactada pela violência da história”. “Embora seus poemas sejam independentes e possam ser lidos separadamente, compõem uma espécie de poema único ou ‘poemão’, que sintetiza vivências subjetivas e coletivas”, segundo a pesquisadora Débora Racy Soares

Paulo Leminski Filho (Curitiba/PR, 1944-1989) é autor de obra prolífica e diversificada, um escritor “multimidia”, em termos atuais. Publicou oito livros de poemas, dois romances, novela infantojuvenil, ensaios, biografia, crítica literária, canções, artigos, crônicas, traduções de clássicos da literatura e transitou, ainda, nas artes gráficas, quadrinhos, TV, jornalismo e publicidade. Segundo Rodrigo Garcia Lopes, na recepção crítica da obra de Leminski costuma-se reduzi-la ao trocadilho e ao haicai, ignorando-se a densidade de muitos de seus “poemas pensantes”. Em carta de 1977 ao poeta Regis Bonvicino, Leminski formula a declaração de princípios de sua poesia: “é a linguagem que tem que estar a serviço da vida, não a vida a serviço da linguagem”. No livro Distraídos venceremos (1987), assim “define” sua poética e de sua geração: “Marginal é quem escreve à margem,/ deixando branca a página / para que a paisagem passe / e deixe tudo claro à sua passagem.” Resistindo ao tempo, sua obra foi reunida em Toda poesia (Companhia das Letras, 2013) e, os inéditos foram publicados no livro O ex-estranho – Paulo Leminski (Iluminuras, 2018), com organização e seleção pela poeta Alice Ruiz S., com quem foi casado, e Áurea Leminski, filha do casal. 

Sob influência difusa de movimentos de contracultura da geração beat (beat generation) – iniciados nos anos 1940 nos EUA, que inspiraram formas de expressão similares em países europeus, e, no Brasil, do movimento modernista pós-1922 e do Tropicalismo/ Tropicália – movimento artístico e cultural de vanguarda, com manifestações principalmente na música popular, no cinema, no teatro, poetas daquela “geração mimeógrafo” compuseram também uma “poética marginal”. Com o “jazz do coração” de Ana C., por meio do “poemão” sintetizado por Cacaso e reconfigurando as palavras de ordem “distraídos venceremos”, de Leminski, esses e outros daquela geração transgressora, cuja qualidade estética foi e é reconhecida pela crítica especializada, continuam lidos e apreciados por leitores do século XXI, com circulação também em redes sociais. E, apesar da diversidade de características dos poetas e da postura transgressora, contestatória e antiprogramática, a “poética marginal” resultante da produção da "geração mimeógrafo" integra um capítulo da história da literatura brasileira.

Maria Mortatti


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OSWALD DE ANDRADE, SOPÃO LITERÁRIO E A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922 / JOÃO SCORTECCI

Conheci o poeta e pintor modernista, Menotti Del Picchia (1892-1988), no final dos anos 1970. Em 1982, quando inaugurei a Scortecci Editora, na Galeria Pinheiros, na cidade de São Paulo, tive a honra de recebê-lo na loja, numa inesquecível tarde de agosto, acompanhado da escritora e acadêmica, Lygia Fagundes Telles. Entre 1982 e 1983, frequentei a casa de Menotti, na Avenida Brasil, na capital paulista. Fiquei amigo também de Helena Rudge Miller, sua enteada, filha de Charles Miller – considerado por muitos o pai do futebol no Brasil – e de Antonietta Rudge, que, nos anos 1920, casara-se com Menotti. De 1934 a 1945, Menotti colaborou com o meu avô, José Scortecci, na revista PAN. Eu, Menotti e Helena conversávamos sobre tudo: literatura, política e principalmente sobre os “causos” da Semana de Arte Moderna, realizada de 11 a 18 de fevereiro de 1922. O "Príncipe dos Poetas" – titulo que Menotti recebeu em 1982 – era “fã” de Juscelino Kubitschek. Na parede da entrada da sua casa, tinha uma foto de JK. Vez por outra, interrompia o papo, apontava para a foto e bradava: “Grande homem!”. Na literatura, o assunto predileto eram as doideiras de Oswald de Andrade. Segundo Menotti, o vate antropofágico era possuído por profunda e insaciável fome. Reuniam-se – costumeiramente – nos fins de semana. Quando Oswald chegava, abria geladeiras, armários, o saco de pão, tudo que cheirasse a comida. O seu apetite era incontrolável! Helena, que participava do papo, balançava a cabeça, rindo, confirmando a prosa. Para fugir dos ataques de Oswald, por sugestão de alguém criaram, então, o famoso “sopão literário”, com as sobras da semana. Não se perdia nada! Menotti – de quem ganhei algumas gravuras que guardo no meu acervo – pintou um retrato de Oswald de Andrade, com babador, “antropofagando” o tal “sopão literário”. O quadro a óleo – eu o vi – ficava na parede da cozinha da casa do "Príncipe dos Poetas", como prova do crime modernista. Não sei do seu paradeiro, infelizmente. Nos anos 1990, tornei-me amigo do escritor e cineasta Rudá de Andrade (Rudá Poronominare Galvão de Andrade, 1930-2009), filho de Oswald e Pagu (Patrícia Rehder Galvão, 1910-1962). Contei-lhe a história do sopão, do quadro pintado por Menotti e aguardei sua reação. Rudá me olhou – pareceu-me surpreso – e depois caiu no riso solto, vampiresco. Seus olhos brilharam. Nada disse. Riu muito. E a amizade continuou até sua morte. 

João Scortecci


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CONRADUS CELTIS: O COLECIONADOR DE POETAS / JOÃO SCORTECCI

O poeta, historiador e humanista alemão Conradus Celtis (1459-1508) foi também colecionador de manuscritos em grego e latim, quando exerceu o cargo de bibliotecário da biblioteca imperial fundada por Maximiliano I, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Arquiduque da Áustria e Rei da Germânia, de 1497 até sua morte, em 1519. O imperador homenageou Celtis, oferecendo-lhe um “privilegium” imperial como professor da arte da poesia e da conversação. Em Viena, deu aulas sobre os manuscritos dos escritores clássicos e, em 1502, fundou o Collegium Poetarum, destinado à formação de poetas. Quando jovem, formou-se em artes liberais na Universidade de Colônia e se graduou na Universidade de Heidelberg – ambas na Alemanha –, atraído pela presença do humanista holandês Rudolf Agricola (Roelof Huesman, 1443-1485). A grande obra de Celtis – e a única publicada em vida – foi Quatro livros de amor (Quattuor libri amorum), de 1502. Para muitos críticos, essa é a contribuição mais original do humanismo alemão à literatura renascentista. Celtis também editou e publicou diversos textos sobre a história e a cultura alemã e fundou academias literárias, entre outras atividades, durante os 10 anos em que viajou pela Europa. Em 1488, na Cracóvia, Polônia, fundou a Sodalitas Litterarum Vistulana, uma sociedade literária com base nas academias romanas. Em 1490, na Hungria, fundou a Sodalitas Litterarum Hungaria, mais tarde conhecida como Sodalitas Litterarum Danubiana, com sede em Viena, Áustria. Em Heidelberg, Alemanha, fundou a Sodalitas Litterarum Rhenana. Conradus Celtis, o colecionador de poetas, morreu de sífilis, em Viena, no dia 4 de fevereiro de 1508, aos 49 anos de idade.

João Scortecci

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UMA VIAGEM NAS ASAS DE SELMA LAGERLÖF, PRIMEIRA NOBEL DE LITERATURA / MARIA MORTATTI

“... em reconhecimento do idealismo elevado, da imaginação vívida e da percepção espiritual que caracterizam seus escritos”: essa é a justificativa da Academia Sueca para escolher Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf (20.11.1858 – 16.03.1940), como a primeira escritora laureada com o Prêmio Nobel de Literatura (1909). Foi também uma das primeiras escritoras feministas escandinavas e a primeira a integrar a Academia Sueca (1914), tendo se consagrado como uma das maiores escritoras de seu país e conhecida internacionalmente. 

Selma Lagerlöf nasceu e viveu até os 24 anos em Mårbacka, propriedade da família na província sueca de Värmland. Leitora desde cedo, educada em casa como as jovens da época, começou a escrever ainda nessa época. Foi incentivada a publicar seus primeiros versos na revista literária feminista Dagny, fundada pela pioneira ativista dos direitos das mulheres no país, a baronesa Sophie Lejonhufvud Adlersparre (Esselde). Em 1885, formou-se professora e lecionou em escola para meninas em Landskrona, até 1895, quando se mudou para a cidade de Falun e passou a se dedicar apenas à carreira literária. Com a escritora sueca Sophie Elkan (1853-1921) – por quem se apaixonou –, entre 1895 e 1899 viajou para Itália, Egito, Palestina, França, Bélgica e Holanda, recolhendo material para seus livros. Com o dinheiro obtido com seus primeiros livros e com o prêmio Nobel, em 1910 realizou o antigo desejo de comprar de volta a propriedade da família, vendida para salvar dívidas do pai e do irmão. Lá passou a morar até a morte, continuando sua obra de escritora. Além das atividades de fazendeira, dedicou-se a causas feministas e humanistas. Após a morte da amiga escritora, Lagerlöf herdou seus pertences pessoais e converteu um cômodo de sua casa em Mårbacka em um museu dedicado a Sophie Elkan.

Sua obra literária é inspirada nas histórias e lendas populares do seu país, rompendo com o realismo predominante em sua época e inserindo-se na tradição do conto de autoria feminina na Suécia, iniciada com Fredrika Bremer (1801-1865), escritora e pioneira do movimento feminista no país. Em 1891, Selma Lagerlöf publicou seu primeiro romance Gösta Berling Saga (A Saga de Gösta Berling), considerado por críticos literários como sua obra-prima e precursor do realismo mágico. Escreveu, depois, mais de duas dezenas de publicações, alguns póstumos, entre romances, contos, biografia, autobiografia, ensaios e literatura para crianças. No Brasil foram publicadas apenas sete de seus livros, entre os quais Nils Holgerssons underbara resa genom Sverige  (A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia), seu livro de maior sucesso, que integra o cânone da literatura para crianças e jovens, foi adotado em todas as escolas suecas e traduzido para mais de 60 idiomas, além de adaptações em livros, peças de teatro, ópera, filmes e séries de cinema e TV. 

Publicado em 2 volumes, em 1906 e1907, o livro foi escrito – depois de muita pesquisa – por encomenda do diretor da escola elementar onde ela lecionava, para ensinar geografia e outros aspectos da Suécia aos alunos. O protagonista, Nils Holgersson, com 14 anos, filho de camponeses pobres da região da Escânia, menino preguiçoso, violento e maldoso com animais e pessoas, que só gostava de dormir e comer, é castigado com a transformação em duende e monta num ganso doméstico, que voa na primavera seguindo um bando de patos selvagens até a Patagônia. Durante a viagem, enfrenta sustos e medos, mas com o tempo vai ganhando coragem, descobrindo a Suécia como “uma toalha quadriculada”, participando de aventuras com as aves e aprendendo com elas a se tornar um menino melhor, que respeita as pessoas e a natureza, reconhece a importância do trabalho e da caridade, podendo, então, voltar ao tamanho e à forma humana. 

Apesar de sua finalidade didático-pedagógica, com lições morais, religiosas, humanistas e nacionalistas, características da literatura infantil ocidental da época – como exemplificam os contos de Zacharias Topelius (1818-1898), finlandês de expressão sueca; Cuore, libro per i ragazzi (Coração, livro para meninos) (1886), do italiano Edmondo De Amicis; Le Tour de la France par deux enfants (Viagem pela França por duas crianças) (1877), da francesa Augustine Fouillée; Heide (1879/1880), da suíça Johanna Spyri, entre outros – os talentos literários da autora e a qualidade poética de sua narrativa se destacam nessa obra que continua sendo lida e apreciada na Suécia e em outros países, até os dias atuais. Foi elogiada pelos escritores Rainer Maria Rilke e Marguerite Yourcenar e mais recentemente por críticos literários e editores, em diferentes aspectos: um dos primeiros “romances ecológicos” do mundo; uma “fábula de dimensões épicas sobre a redenção e encontrar o bom caminho”; “quase uma rapsódia sueca”. 

A obra de Selma Lagerlöf, em particular A maravilhosa viagem de Nils Holgersson através da Suécia, ficou pouco conhecida e estudada no Brasil ao longo do século XX. A primeira tradução desse livro para o português, feita por Maria de Castro Henriques Oswald, foi publicada em 1953, em Portugal; no Brasil, em 1985, pela Nórdica, foi publicada a tradução de Manoel Paulo Ferreira. Podem-se, no entanto, identificar semelhanças entre o livro protagonizado por Nils e ao menos um livro brasileiro para crianças do início do século XX: Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bonfim, que também teve grande sucesso nas escolas, dada a forma agradável de ensinar às crianças geografia, hábitos, costumes, lendas do País, por meio da narração da viagem dos irmãos Carlos e Alfredo de Recife/PE até Pelotas/RS, em busca do pai. 

Passa o tempo, mudam-se critérios e gostos literários, mas neste século XXI as aventuras e o aprendizado do menino sueco montado nas asas de um ganso, nascidos da pena da feminista sueca e primeira Nobel de Literatura, continuam maravilhando crianças e adultos, muito além das lições de geografia de sua terra natal. Assim são os clássicos: nunca terminaram de dizer o que tinham a nos dizer, como ressalta o escritor italiano Italo Calvino. Certamente, o duradouro sucesso desse clássico sueco se deve às maravilhas da viagem que, pelos olhos de Nils, podemos desfrutar nas asas de Langerlöf, como sugere a poeta brasileira Cecília Meireles: “Assim vai o herói. E assim vai se desenrolando o livro. A técnica é realmente a da receita, - parece fácil. Ai das supostas facilidades literárias. Mas aqui não há nada a temer: Nils viaja com segurança, levado por Selma Lagerlöf...”. Nós, leitores, também!

Maria Mortatti  

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HAIDI, A “FILHA" DILETA DE JOAHNNA SPIRY / MARIA MORTATTI

Com 10 anos de idade, ganhei um exemplar de Haidi, a filha das montanhas, adaptação do romance infantojuvenil da escritora suíça de expressão alemã Johanna Spiry (12.06.1827- 07.07.1901). De formato pequeno, capa de fundo amarelo, 126 páginas com algumas ilustrações em preto e branco, o livro foi publicado pela Livraria Exposição do livro (SP), sem data, com tradução por Sylvio Monteiro da adaptação (dos dois volumes originais) pela escritora estadunidense Alice Thorne e publicada em 1961 pela Grosset & Dunlap. Foi um presente de D. Elza Canazza, professora de minha turma (feminina) no 4º. ano primário, como prêmio pelo aproveitamento, com louvor, no ano letivo de 1964 no Grupo Escolar “Pedro José Neto”, de Araraquara/SP. 

Nascida nos Alpes Suíços, Johanna Louise Heusser Spyri começou a escrever aos 43 anos de idade e publicou o primeiro livro em 1873, em Zurich, Alemanha, onde passou a morar depois de casada. Após a morte do marido e do único filho, em 1884, dedicou-se a causas de caridade. Ao longo da vida, escreveu mais de 50 histórias, a maior parte para crianças e com tom didático e religioso, tendo se tornado um ícone na Suíça. 

Seu primeiro romance para crianças é Heide. Escrita em quatro semanas, a história original de Joahnna Spyri foi publicada em duas partes: Heidis Lehr- und Wanderjahre (Os anos de aprendizado e viagens de Heidi), de 1879/1880, e Heidi kann brauchen, was es gelernt hat (Heidi pode usar o que aprendeu), de 1881. Heide (ou Haidi), é o apelido da protagonista, Adelaide, menina órfã de cinco anos, otimista e altruísta, levada pela tia Dete para morar com o avô paterno que vivia sozinho nos Alpes Suíços. Lá, ela aprende e ensina o amor ao próximo, à natureza e a reverência a Deus. Com 10 anos de idade, a tia a leva à casa de uma rica família em Frankfurt, Alemanha, para ser companheira da menina Clara, de 12 anos, paralítica, órfã e solitária. Lá, ela novamente ensina e aprende a generosidade e a alegria de ajudar os outros. Sente saudade da vida nas montanhas e para lá retorna, levada por Clara e seu pai.

Heide teve sucesso imediato e se tornou uma das obras mais conhecidas da literatura suíça e um clássico da literatura infantojuvenil universal. Os livros foram traduzidos para mais de 50 idiomas, com inúmeras adaptações em livros, filmes e séries live-action e de animação de cinema e TV, peças de teatro, histórias em quadrinhos, musicais. Houve também alegação de a história ter sido plagiada de romance suíço de 1830, o que foi contestado por não haver comprovação científica das semelhanças encontradas. 

O exemplar que ganhei há seis décadas, guardei-o com as recordações escolares. Recentemente, reencontrei-o e o reli. Com certeza, a professora o escolheu para me presentear por ser a adaptação então recém-lançada de um clássico da literatura para meninas e com lições exemplares a serem aprendidas e usadas. Assim o li naquela época e gostei. Provavelmente também usei muito do que aprendi com ela e outras protagonistas órfãs de histórias parecidas – como Pollyana, do romance de Eleanor Porter, que li logo em seguida, na tradução de Lobato pela Cia Editora Nacional – as quais foram criticadas por estudiosos da literatura infantil a partir dos anos 1980, justamente pelo tom edificante e didático. Na releitura, as lições de Haidi não me empolgaram. Mas me detive na folha de rosto com o carimbo da Livraria Acadêmica de Araraquara e anotações em manuscrito, abaixo de meu nome: “Lembrança de D. Elza, 12 de dezembro de 1964.” Talvez o livro-lembrança da saudosa professora e do que me ensinou tenha representado a mais duradoura e afetiva lição daqueles tempos de aprendizado com Haidi, a “filha" dileta de Johanna Spyri. 

Maria Mortatti 

 

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RUBEM BRAGA E A DESPEDIDA NAS ÁGUAS / JOÃO SCORTECCI

Eu ando apaixonado por crônica. Ela mesma: paixão desbragada! Comecei – confesso – escrevendo prosa poética, combinando prosa com elementos poéticos e, do nada, amanheci preso em seus tentáculos, perdidamente. Fiquei. Hoje, exercício diário, necessariamente obrigatório. Quando não escrevo, sinto-me vazio, devedor de mim mesmo, estranho. O cronista e jornalista Rubem Braga (1913-1990), nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES. Andei por lá nos anos 1970, tomando banho de cachoeira e espantando moscas do prato. Cidade das moscas! Na hora do almoço montávamos na mesa morrinhos de comida para enganá-las do prato principal: o nosso! Cachoeiro de Itapemirim terra também do cantor Roberto Carlos e outros, também famosos. Rubem Braga iniciou-se no jornalismo aos 15 anos de idade, trabalhando no jornal “Correio do Sul” e no jornal “Diário da Tarde”, fazendo reportagens e assinando crônicas. Formou-se em Direito, em 1932, em Belo Horizonte/MG, mas não exerceu a profissão. Como jornalista, cobriu a Revolução Constitucionalista, movimento armado ocorrido nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, entre julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo derrubar o governo de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Em 1936, transferiu-se para o Recife/PE, onde dirigiu a página de crônicas policiais no “Diário de Pernambuco”, o mais antigo periódico em circulação da América Latina, fundado em 7 de novembro de 1825, pelo tipógrafo Antonino José de Miranda Falcão. Fundou o periódico “Folha do Povo” e lançou, ainda, o seu primeiro livro de crônicas, “O Conde e o Passarinho”. Em 1947 em São Paulo, fundou a revista “Problemas”, do PCB – Partido Comunista do Brasil, que circulou até 1956. Durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como correspondente de guerra junto à Força Expedicionária Brasileira. No exterior, desempenhou função diplomática em Rabat, Marrocos, atuando também como correspondente de jornais brasileiros. Após seu regresso fixou residência na cidade do Rio de Janeiro, onde escreveu crônicas e críticas literárias, para o “Jornal Hoje”, da Rede Globo. Em 1987, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal. Em 1960, em sociedade com os escritores Fernando Sabino e Walter Acosta fundou a Editora do Autor, cuja divisão, em 1966, deu origem à Editora Sabiá, comprada, posteriormente, pela Livraria José Olympio Editora. Na crônica “Despedida”, do livro “A Cidade e a Roça” (Editora do Autor, 1964), escreveu: “E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval – uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito – depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado – sem glória nem humilhação.” Rubem Braga faleceu de insuficiência respiratória, no Rio de Janeiro/RJ, em 19 de dezembro de 1990, aos 77 anos de idade, em decorrência de um câncer de laringe. Foi cremado e suas cinzas lançadas ao rio Itapemirim, no Espírito Santo, na imensidão da pequena pedra achatada.

João Scortecci


João Scortecci


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SEBO DO MESSIAS, A DEUSA ETHYMON E A BIENAL DO LIVRO DE SÃO PAULO DE 1994 / JOÃO SCORTECCI

Eu, Ézio Grassi Peludo e Luiz Caldas Tibiriçá: éramos os ensebados de Pinheiros! No início dos anos 1980 fomos visitar o Sebo do Messias, do livreiro Messias Antônio Coelho (1941-2024), na Praça João Mendes, no centro de São Paulo. “Professor Ézio, o que estamos procurando?”, perguntei. “Algo mais antigo do que nós!”, explicou. Gritei de felicidade: "Encontrei uma edição do livro Quintanares do Mário Quintana!". Ézio, cabreiro, perguntou-me: “Qual o ano da publicação?” "Ano de 1976, 1ª edição, Editora Globo". “Não serve! Ensebado – raro e de valor – tem que ser mais velho do que nós!” Tibiriçá, que nos observava, completou, ironicamente: “Scortecci, edições de 1920 pra baixo!” Ézio nos olhou, sorriu e foi conversar com Camões, que nos chamava no aglomerado português. Passamos o resto do dia por lá, no “ensebado” do Messias. “Quero morrer aqui!”: palavras de Tibiriçá. “Nós também!” Naquele dia comprei duas raridades: uma de Quintana e outra de Guilherme de Almeida. Luiz Caldas Tibiriçá comprou um livro sobre Bartira, índia tupiniquim paulista do século XVI, filha do cacique Tibiriçá (seu tataravô). E Ézio Grassi Peludo comprou um livro sobre a deusa grega Ethymon, mãe de todas as palavras. Conheci a Deusa Ethymon – mãe de todas as palavras – no ano da graça de 1983. Ethymon, a Deusa Grega, já na sua quinta reencarnação, vivia, desde então, no corpo de uma jovem índia, na cidade de Cananéia, no litoral paulista. Ethymon morreu jovem, no ano de 2006, no mesmo dia do passamento do arqueólogo e lexicógrafo Tibiriçá. Em 1994, ano da realização da última Bienal do Livro de São Paulo no Pavilhão do Parque do Ibirapuera, um grupo de moças – sabendo que éramos escritores – pediu-nos autógrafos. Professor Ézio, que sempre carregava no bolso da camisa duas esferográficas, sacou uma delas e gentilmente indagou: “Moça, onde você quer o autógrafo?” Esperávamos que a moça nos apresentasse um livro, um caderno escolar ou mesmo uma folha avulsa de papel. Que nada! A moça, 15 anos de idade, talvez 16, desabotoou a blusa escolar – não usava sutiã – e resfolegou: “Aqui!”, apontando com o indicador para o seu peito esquerdo. Ézio tentou – delicadamente – escrever um verso “caracol”, sem sucesso. A esferográfica deslizava na maciez da pele do peito da menina. O que fazer? Outra moça do grupo, então, sugeriu: “Segura no bico do peito que vai!” Ézio, obediente, segurou no bico excitado do peito da moça e poetou um pequeno poema. Versos crassos, do seu único e melhor poema carnal. Foi a glória. Ethymon, que nos acompanhava, sorriu. “Ézio, está gostando da Bienal do Livro?” “Muito! Muito!”, respondeu. Quintana, que nos acompanhava de perto – desde o Sebo do Messias – profetizou: “Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!”. Risos. Ézio e Tibiriça morreram. Agora soube da morte do livreiro Messias (Messias Antônio Coelho, 1941-2024). Fiquei só de tudo. E Ethymon? Talvez. Prometeu voltar. Quando? Não sei. Aguardo os sinais de luz do do poema sem-fim de mim mesmo. 

João Scortecci

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1964, A UBE E A GESTÃO DO JORNALISTA OLIVEIRA RIBEIRO NETO / JOÃO SCORTECCI

O jornalista e romancista Afonso Schmidt (1890-1964), após eleito, tomou posse na presidência da UBE – União Brasileira de Escritores, no dia 18 de março de 1964, alguns dias antes do golpe militar de 1964. Na ocasião, seu vice, o professor e jornalista Luiz Geraldo Toledo Machado (1927-2010), estava em viagem no exterior e não pôde, formalmente, tomar posse, segundo os estatutos da entidade. No dia 31 de março – 13 dias depois da eleição – foi deflagrado o golpe militar de 1964. Três dias depois, no dia 3 de abril de 1964, Afonso Schmidt veio a falecer, deixando vaga a presidência da UBE. Uma assembleia extraordinária foi, então, convocada pelo Conselho Consultivo e Fiscal da entidade, formado pelos intelectuais: Mário Donato, Joaquim Pinto Nazário, Leôncio Basbaum, Solano Trindade, João de Souza Ferraz, Maria José de Moraes Pupo Nogueira, Fábio Rodrigues Mendes, Aristeu Bulhões e Benedito Geraldo de Carvalho. Nova eleição foi marcada, e, na ocasião, foram registradas três chapas, encabeçadas, respectivamente, pelos escritores: Jamil Almansur Haddad, Oliveira Ribeiro Neto e Mário Graciotti. Alguns dias antes da eleição, Haddad e Graciotti renunciaram, e o professor, promotor público, juiz e adido cultural do Itamaraty, Oliveira Ribeiro Netto (Pedro Antônio de Oliveira Ribeiro Netto, 1908-1989), foi indicado como presidente da UBE. Os primeiros anos da sua gestão foram marcados por conturbações na ordem jurídica do País, prisão de escritores e apreensão de livros. A entidade, nesse período, publicou diversos boletins, dirigidos pelo escritor e romancista Ibiapaba Martins (Ibiapaba de Oliveira Martins, 1917-1985) que, em artigos assinados, verberava as violências contra escritores presos, perseguidos e torturados. Somente no dia 20 de maio de 1965 a chapa encabeçada pelo jornalista Oliveira Ribeiro Neto tomou posse, de direito, tendo Lygia Fagundes Telles (1ª vice), Raimundo de Menezes (2º vice), Ibiapaba Martins (Secretário Geral), Roberto de Paula Leite e Hernâni Donato (Secretários), Walter José Faé, Paulo da Silveira Santos e Maíza Strang da Rocha (Tesoureiros). Foram eleitos como diretores: Herculano Pires, Leão Machado, Lília A. Pereira da Silva, Henrique L. Alves, Hélio Silveira, Pascoal Melantônio, João Freire de Oliveira, Clóvis Moura, Alexis Pomerantzeff e Gabriel Marques. O Conselho Consultivo e Fiscal foi formado pelos escritores: Cassiano Ricardo, Sérgio Milliet, João Accioly, Mário Donato, Mário Graciotti, Aristeu Bulhões, Joaquim Pinto Nazário, Domingos Carvalho da Silva, Tito Batini e Solano Trindade. Nesses mais de 50 anos de livros, assusto-me, sempre, quando lembro que conheci, convivi e publiquei pela Scortecci Editora muitos desses incríveis e imortais escritores. Não adianta dizer que eu era jovem e tive sorte: eu envelheci, também.   

João Scortecci


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O POETA RABEARIVELO E OS BOIS AZUIS / JOÃO SCORTECCI

O poeta Jean-Joseph Rabearivelo (Jean-Casimir Rabe, 1901-1937), nasceu na República de Madagascar, país insular no Oceano Índico, maior ilha da África e a quarta maior do mundo, situada na costa sudeste da África. Quando nasceu, o país ainda se chamava República Malgaxe, uma colônia francesa, que se tornou independente no ano de 1960. Os malgaxes formam o grupo étnico de mais da metade da população da ilha, hoje estimada em 28 milhões de habitantes. Rabearivelo é considerado o primeiro poeta moderno da África e o maior de Madagascar. Publicou seus primeiros poemas ainda adolescente, em revistas literárias locais. “La coupe de cendres” (1924) é o seu livro de estreia na poesia. Publicou em inúmeras antologias de poesia em francês e malgaxe, bem como críticas literárias, peças teatrais, uma ópera, além de dois romances, publicados postumamente: “L'Interférence, suivi de Un Conte de la Nuit” (1988) e “Irène Ralimà sy Lala roa” (1988). Rabearivelo trabalhou na editora Imprimerie de L’Imerina, como revisor e editor. Passou a ser conhecido na Europa por meio de um artigo, em francês, sobre a poesia malgaxe, publicado pela revista austríaca missionária “Anthropos”. Nos versos do poema “O boi branco” do livro “Quase Sonhos” (1934) (tradução de Antonio Moura, Lumme Editor, 2004), assim se expressa: “Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?/ Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes./ Ele vem de um parque que se estende às margens da noite/ e se enfurna entre duas Vias Lácteas./ O rio de luz não tem aplacado sua sede,/ e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas./ Sendo um efebo cego nas regiões do dia,/ ele nada tem podido acariciar com seus cornos;/ mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite/ e que a lua brota de um salto como um touro,/ seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis/ e os bois selvagens que dormem em nossos desertos”. Rabearivelo cometeu suicídio por envenenamento com cianeto. Na manhã do seu suicídio, escreveu um poema final e queimou os cinco primeiros volumes do seu diário pessoal, os “Calepins Bleus” ("Cadernos Azuis"), deixando apenas os últimos quatro volumes, aproximadamente 1.800 páginas, que documentam a sua vida a partir de 1933. Nas suas anotações finais no diário, registrou, ainda, detalhadamente, a experiência do seu suicídio. Tinha 36 anos de idade e, apesar das desilusões e amarguras em seu último ano de vida, parecia mais forte que os bois azuis do Cruzeiro do Sul.

João Scortecci

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LINDOLF BELL, O POETA DA GERAÇÃO DAS CRIANÇAS TRAÍDAS / JOÃO SCORTECCI

Conheci o poeta Bell (Lindolf Bell, 1938-1998) nos anos 1980. Dizia sempre: “Menor que o meu sonho não posso ser”. Quem nos apresentou foi o também poeta catarinense Péricles Prade (1942-2024), na época Presidente da UBE – União Brasileira de Escritores. Avisou-me: “Scortecci, hoje o Bell vai relançar o seu livro ‘As Annamárias’, no Spazio Pirandello. Vamos?” Fomos em bando: eu, Péricles, Caio Porfírio Carneiro, Lauro Vargas e outros diretores da entidade. O Pirandello ficava na Rua Augusta, n. 311, na época ponto de encontro de jornalistas, escritores e intelectuais. Foi lá que conheci Loyola Brandão, Moacir Amâncio, Caio Fernando Abreu e outros. Naquela noite – inesquecível,  até hoje – de Catequese Poética, movimento de popularização da poesia que teve início na década de 1960, Bell declamou o “Poema das crianças traídas”: “Eu vim da geração das crianças traídas./ Eu vim de um montão de coisas destroçadas./ Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu./ Eu fui à tarefa num tempo de drama./ Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado.../ Eu sou a geração das crianças traídas./ Eu tenho várias psicoses que não me invalidam...” Aplausos. Durante alguns anos, vez por outra, trocávamos cartas datilografadas. Guardo-as no memorial da Scortecci Editora. Era seu desejo: "Há muitos anos tento um espaço descentralizador da cultura brasileira no Sul (em Blumenau, Santa Catarina) e gostaria de receber esta obra para revender em meu espaço cultural." Um detalhe, insignificante, talvez. Disse-lhe: “Bell, você precisa limpar os tipos da sua máquina de escrever!”. Ele, uma única vez, respondeu-me: “Farei isso!”.  As letras “e” e “o” da sua máquina de escrever eram engodos, pontos sujos: borravam o papel. A última carta que recebi do poeta de Timbó, data de 11 de maio de 1991, e nela Bell, escreveu: “De muitas maneiras (e não tantas neste país), as pessoas resistem no ofício.” Pensei, quando li: “Não podemos ser menores que os nossos sonhos”. Bell – o poeta da geração das crianças traídas – morreu jovem, no dia 10 de dezembro de 1998, aos 60 anos de idade. 

João Scortecci


João Scortecci

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O GOLPE DO LIVRO E AS MAZELAS DO MARKETPLACE / JOÃO SCORTECCI

A Scortecci Editora edita, imprime e comercializa livros desde 1982. Os livros são comercializados por meio de três lojas virtuais próprias, de duas distribuidoras, algumas redes de livrarias parceiras e também por meio do sistema conhecido no mercado como “marketplace”, plataforma de vendas on-line que reúne vários lojistas. O marketplace, que funciona como um tipo de shopping virtual, é um modelo em crescimento no mundo todo e veio para ficar, até segunda ordem. No Brasil, vem apresentando problemas recorrentes de credibilidade, golpes e falências. Problemas passageiros? Talvez. O golpe do livro com preço abusivo virou uma praga e anda fazendo estragos, prejudicando editoras e autores que vendem seus livros por meio dessa plataforma on-line. O golpe começa assim: no dia seguinte, às vezes até no mesmo dia, questão de horas, depois que um livro é lançado no mercado, com preço de capa sugerido – exemplo: R$ 50,00 –, aparecem outros "fornecedores" vendendo o mesmo livro pelo preço abusivo de R$ 150,00. Diariamente recebemos reclamações de autores – indignados – comunicando o erro e pedindo correção. Nada ou quase nada podemos fazer, além de colocar a boca no trombone. No nosso caso, assim que o livro entra em comercialização, enviamos para nossos autores – atualmente mais de 11 mil – os links corretos: das nossas lojas, das lojas do marketplace, das redes de livrarias parcerias e, ainda, o nome das duas distribuidoras com que trabalhamos. No corpo da mensagem, segue nota explicativa e de alerta sobre o “golpe do livro” que assola o mercado. Esse golpe – existem variáveis – funciona assim: o cliente entra na plataforma, localiza o livro – quase sempre bem visível nos resultados de busca – e, mesmo estranhado o preço abusivo, acaba comprando. O golpista, que não é livreiro, compra então a obra diretamente na editora ou na distribuidora, com desconto de livreiro: de 30 até 45% de desconto sobre o preço de capa. O lucro do salafrário, no exemplo dado, é, portanto, de R$ 127,50 por exemplar. O golpe do livro é também uma das razões – existem outras – de apoiar, acreditar e apostar na Lei do Preço Único (batizada de Lei Cortez, PLS 49/2015), cujo objetivo maior é promover a diversidade de livros, fortalecer livrarias independentes e garantir a concorrência mais justa no mercado editorial. Até lá, enquanto ela não “chega”, o jeito é denunciar o golpe, espernear, gritar, alertar autores e consumidores de livros. A título de curiosidade, segundo o DataSenado, nos últimos 12 meses, golpes digitais vitimaram 24% dos brasileiros com mais de 16 anos. São mais de 40,85 milhões de pessoas que perderam dinheiro em função de algum tipo de crime cibernético. Das mazelas: as piores!

João Scortecci              

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CRISÁLIDAS MACHADIANAS: EFUSÃO DE ASAS LIBERTAS! / JOÃO SCORTECCI

Crisálidas e Corina: metamorfose! Machado (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839 - 1908) tinha, na época, 25 anos de idade, isso no ano de 1864. Terceiro ciclo de vida de uma borboleta: é quando a lagarta atinge o seu ciclo completo, solta a pele e produz a dura casca (casulo) protetora da crisálida. Depois, borboletas no estômago: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e muitos outros. Crisálidas, originalmente, tinha 29 poemas, 17 dos quais foram cortados pelo poeta quando editou “Poesias Completas”, em 1901. Entre os 17 poemas da obra “Os Versos a Corina”, os dedicados à sua primeira musa, cuja identidade ficou escondida no casulo do coração e nunca, jamais, foi revelada. Amor por crisálidas! Machado, maior escritor brasileiro, um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Machado e seus segredos de lagarta! “Amemos! diz a flor à brisa peregrina, / Amemos! diz a brisa, arfando em torno à flor; / Cantemos esta lei e vivámos, Corina, / De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.”. Gosto de pensar que toda borboleta voa o seu derradeiro destino. Muitos chamam de o “terceiro ciclo de vida”. Desapego absoluto! Corina pode ter sido o último amor maduro, pode ter sido uma fantasia qualquer – passageira – ou ter sido, a mutação da alma ou até mesmo o próprio desejo de “metamorfose” machadiana, e ser, infinitamente: o gozo da lagarta no cio, o corpo protetor das formas, do casulo rompido, ou, ainda, uma efusão de asas libertas em dia de queda livre. 

João Scortecci

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LIVRO DAS MENTIRAS / JOÃO SCORTECCI

Livro de autor aflito é tortura. Novato, então: um desespero só. Pior que tudo: quando o livro é o nosso. Muito sofrimento. Entregamos o livro – quase – pronto, com a promessa de depois – antes de liberar para a gráfica –dar uma olhada final, uma arredondada. Mentira! Quando o livro volta da diagramação, já no boneco, bate aquele desespero mortal. Transpiração! Muda aqui, muda acolá, muda, muda. Jura que escrevi isso? Mexeram no meu arquivo? Doideira. Uma vez copiei o arquivo do livro já diagramado no “Bloco de notas”, depois de volta para o "Word" e reescrevi tudo. Livro novo? Sim. Aquele outro vai ficar para depois. Menti. Já que era outro livro, aproveitei e troquei também o título. Tenho um arquivo só com títulos, ideias e rascunhos. Vez por outra vou lá e trabalho – aleatoriamente – num deles. Qual? Um deles. Mil anos: é o tempo de que vou precisar para terminá-los. Mentira. Nós, escritores, somos mentirosos e covardes. Vivemos com a cabeça nas nuvens. Quando a coisa aperta, filosofamos com os deuses: a poesia salva! Em 50 anos trabalhando com livros – escrevendo, editando e imprimindo – só conheci um escritor honesto, com os pés no chão. Foi o Zacarias, viúvo, na época com 60 anos, da cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Fechou contrato de edição do livro e pediu 30 dias para concluir a obra, um romance policial, algo assim. Voltou na data combinada e sentenciou: “Não consigo terminar o livro! Estou desistindo.”. “Quer ajuda?”, perguntei. “Não, obrigado.” Desistiu de vez. Foi embora feliz, aliviado, resolvido. A maioria de nós mente, inventa desculpas, conversa para boi dormir: “estou finalizando”; “falta pouco”; “fazendo ajustes pontuais”; “dando a última olhada”; “na revisão com um amigo”; “no prelo” ... Já escutei de tudo: esse será o meu último livro! Pergunta: “E sua obra-prima: não vai escrevê-lo?” “Chega! Chega!”, mentimos, sempre. Todas as vezes em que começo novo lembro do Zacarias, o escritor feliz, calmo, resolvido e mortal. 

João Scortecci    


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DRUMMOND E O DIA 13 DE MAIO DE 2012 / JOÃO SCORTECCI

O poeta Drummond, antes do sol e aos olhos do tempo, ligou-me, tristonho, reclamando da vida, assim que soube do que fizeram com sua estátua da orla de Copacabana, zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Estava deprimido e chutando pedras. Estava travestido de “José” e vazio, vencido pelo vasto mundo que é a vida. Pobre poeta Drummond! Falou-me de Itabira – quase nada – da sua terra natal, da sua infância, dos amigos que se foram e das pedras agudas que habitam a imortalidade. “Drummond, o que aconteceu?”, perguntei-lhe. “Roubaram-me os óculos. Assim não consigo ver as palavras, os amores, o sentimento do mundo...", disse-me. Senti sua dor. “Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”, resmungou. No silêncio do claro enigma, poetamos perdas. Depois, desligou o telefone e partiu – veloz – a galope. 

João Scortecci


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BIENAL DO LIVRO: COBRA GIGANTE, PEDAÇOS DE MELÃO E LIVROS! / JOÃO SCORTECCI

Da Bienal Internacional do Livro de São Paulo de 1994, realizada no Parque do Ibirapuera, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, participei uma única vez, a última, antes de o evento mudar de local. A Bienal do livro de São Paulo, acontecimento realizado a cada dois anos, nos anos pares, acontece desde 1970, pelos espaços do Ibirapuera, do Anhembi, Expo Center Norte, São Paulo Expo e agora, depois de 54 anos, novamente no Anhembi, reformado e ampliado. Em 1994, decidi participar pela primeira vez, de uma bienal do livro. A Scortecci Editora tinha, na época, 16 anos de funcionamento, e a oportunidade era, sem pensar muito, um ato de loucura. Comprei o espaço no último dia possível. Olhei a planta do evento – um labirinto – ou melhor, um caracol, obra do arquiteto Niemeyer, no coração do parque, com 40 mil m² de área e 250 m de extensão. “Uma cobra gigante?”, comentei. “Isso mesmo: o público entra pela boca da cobra e sai pelo rabo”. Foi o que me disseram. Risos. “Formato de cobra?”, quis saber, por curiosidade. “Isso. A ideia é simples: fazer com que o público caminhe, obrigatoriamente, passando por todos os estandes!” Foi o que um diretor da Câmara Brasileira do Livro, entidade promotora do evento, explicou-me. "Um curral!", pensei. Nas entranhas da planta, no meio do corpo da cobra gigante, num vão, embaixo da rampa de acesso ao piso superior, localizei um espaço livre, de 20 m². “Quero este!”, apontei com o dedo. Na verdade, era o último espaço disponível. Fiz o cheque. Fui embora feliz, radiante, mordendo as orelhas de alegria. "Eu estou na Bienal do Livro!", gritei. Era uma sexta-feira, final de tarde. No sábado, acordei matutando e pensando na loucura que havia feito. Pensei: dei o passo maior que as pernas. E o pior: comecei a desconfiar do espaço. No domingo, tive um pesadelo terrível: uma cobra gigante estava me comendo, vivo, pelos pés! A ficha, então, caiu: um espaço maravilhoso, no meio da cobra, dando sopa? Algo estranho. Certeza: caí numa roubada. Juro: pensei em cancelar a compra e depois pular no laguinho do Parque do Ibirapuera. Manchete: "Editor afoga-se no laguinho do Ibirapuera". Algo assim. Guardei a cisma e fui, então, à luta. De lá pra cá, já participamos de 15 edições da Bienal Internacional do Livro de São Paulo e, ainda, tivemos uma participação no 1º Salão do Livro de São Paulo, em 1999, e outra, durante a pandemia da Covid-19, na 1ª Bienal Internacional Virtual do Livro, em 2020. Em 1994, no final do primeiro dia do evento, um sábado, tudo havia transcorrido maravilhosamente bem. Deixei o espaço feliz, radiante, pisando nos cascos, pronto para a maratona de dez dias de Bienal. No segundo dia, um domingo, fui um dos primeiros a chegar ao pavilhão do Ibirapuera. Passei pela cabeça da cobra – local onde estavam as grandes editoras – e mirei o meu destino: chegar até o vão livre, embaixo da marquise, da rampa de acesso ao piso superior, onde estaria, então, o estande da Scortecci. Estava lá. Contemplei, de longe, os livros perfilados nas estantes de madeira, num total, aproximadamente, de uns 300 títulos. Parei na entrada do estande e gritei: “Não! Não!” Alguém da segurança me aguardava, sentado numa bancada. “O que aconteceu aqui?”, perguntei. O segurança apontou para o mezanino e disse, calmamente: “Sabia que lá em cima funciona um restaurante self-service?”. “E eu com isso?”, protestei. Cenário: os livros da Scortecci estavam sujos – emporcalhados – com restos de comida. Alguém “varreu” e jogou a sujeira rampa abaixo, explicou-me o segurança. Na estante principal, central do estande, onde havia arrumado os lançamentos do ano, um troféu inesquecível: pedaços de melão. Fui reclamar e o que eu escutei, até, hoje, dói nas tripas: “A noite você precisa cobrir as estantes com os livros com um plástico!” Deveria? Escutei a "recomendação" de um diretor, de plantão. Isso, talvez, explique a fama que tenho, até hoje, depois de 30 anos de bienais, de reclamar, sempre, sistematicamente, de alguma coisa. Virou folclore! Respondo com o coração: "Não gosto de melão e tenho medo de cobra!".  

João Scortecci     


 


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GAZZETTA: MOEDA VENEZIANA E A GAZETA DA RESTAURAÇÃO / JOÃO SCORTECCI

“Gazeta” ou “gazzetta” – no dialeto veneziano, “gaxeta” – é o nome de uma moeda de prata da Sereníssima República de Veneza, no valor de dois centavos, do século XVI. O nome vem de empréstimo. Havia um título de 0,948 gramas e um peso de 0,24 gramas. No anverso, estava a figura do Juiz sentado e, no reverso, a do Leão de São Marcos. Foi emitida a partir de 1539, durante o governo do Doge Pietro Lando (1462 – 1545). Foi cunhada com esse peso até 1559. Em 1563, foi publicada a primeira “folha de avisos”, uma folha de notícias vendida ao público pelo preço de dois centavos. A partir de então, tornou-se um epíteto – palavra ou expressão que se associa a um nome ou pronome para qualificá-lo – para jornal, tipo específico de publicação periódica, quando os primeiros jornais venezianos custavam uma gazeta. O primeiro jornal em português, “A Gazeta da Restauração” (formato 14 x 20 cm, 12 páginas) foi fundado em 1641, pelo alvará régio concedido ao poeta, impressor e livreiro Manuel de Galhegos (1597 – 1665), um ano depois de Portugal recuperar a independência, em 1º de dezembro de 1640. Serviu de instrumento de propaganda de D. João IV (1604 – 1656), apelidado de “O Restaurador”, para consolidar o poder e combater os “feitos” dos espanhóis, durante longos 60 anos enraizados no espírito do povo português, principalmente entre a nobreza. Entre 1580 e 1640, a linha fronteiriça que separa a Espanha de Portugal deixou de existir, e os dois países formaram um só reino, chamado de União Ibérica. A primeira edição de “A Gazeta da Restauração” teve a marca tipográfica da Oficina de Lourenço de Anveres, sediada em Lisboa. As oito seguintes publicações foram impressas na tipografia do jornalista Domingos Lopes Rosa, com a redação de João Franco Barreto e depois do frei Francisco Brandão. “A Gazeta da Restauração” ganhou, ainda, uma nona edição, a última, em julho de 1642. Em 19 de agosto de 1642, por força de uma lei, foi proibida sua impressão e de todas as gazetas com notícias do reino ou de fora, com a seguinte argumentação: “Em razão da pouca verdade de muitas e do mau estilo de todas elas”.

João Scortecci

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JORGE CURY: "LER É UMA MANEIRA SUAVE DE ESPERAR" / MARIA MORTATTI

Jorge Cury (12.04.1932 – 01.01.2019) foi professor de Literatura Portuguesa no curso de Letras da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (Unesp) e um dos fundadores (em 1983) do Centro de Estudos Portugueses da faculdade. Conviveu com Jorge de Sena e Adolfo Casais Monteiro, ilustres poetas, professores e críticos literários portugueses, que lecionaram na faculdade, nos anos 1960, autoexilados no Brasil por causa das perseguições do regime político autoritário de Salazar, durante o Estado Novo (1933 – 1974).  

As principais características de Jorge Cury eram o sorriso constante e ironia contundente; simples, afetuoso e firme; católico convicto, enérgico  defensor da justiça social, da Teologia da Libertação e do método "ver, julgar e agir", da Ação Católica, criado pelo padre belga Joseph Cardijn. Para mim, Jorge foi um amigo, espécie de pai espiritual – nos movimentos de jovens católicos que ele liderava – e de pai intelectual – como professor que me ensinou a amar a literatura portuguesa, desde a do período Medieval até à do século XX.

Faleceu na noite/madrugada de Réveillon de 2019, em decorrência de um AVC. Semanas antes, visitei-o no apartamento da Av. São Geraldo, em Araraquara. Uma tarde inesquecível com ele, a esposa, Terezinha, e as filhas, Silvana e Maria Eugênia. Muitas lembranças, muitas risadas, muitas histórias memoráveis e um projeto que lhe propus: reunir suas memórias. Concordou. Combinamos que eu iria preparar uma projeto, com gravação de depoimentos em vídeo e pesquisa documental em sua extensa biblioteca particular, então abrigada na antiga casa da Rua 4 em frente ao Instituto de Educação "Bento de Abreu", onde estudei e fui aluna de Terezinha – professora de Química no curso Colegial-Científico. Por gostar de suas aulas, indiquei o curso de Química como segunda opção no exame vestibular. E escolhi a primeira opção, Letras. Foi assim que conheci Jorge.  

Infelizmente, não deu tempo para realizarmos aquele projeto. As memórias de Jorge ficam registradas nas de todos que com quem ele conviveram.  Para mim, ficam os muitos registros escritos de suas aulas, os livros que li por sua indicação, muitas lembranças, muitas histórias – que não cabem neste post - e suas lições que continuam vivas. De duas delas, em especial, não me esqueço. Certo dia, durante uma aula, em tarde quente de verão e sol araraquarenses, início dos anos 1970, olhou fixamente para as jovens alunas – havia apenas um aluno na turma – e em seu costumeiro tom irônico, foi dizendo o que vislumbrava para cada uma. À amiga sentada ao meu lado,  disse: “Você vai se casar com um marido rico e não vai ser professora”. E, para mim: “Você vai ser poeta”. Profético, nos dois casos. A outra  foi a mais importante. Uma eterna lição de vida e amor pelos livros e pela literatura: “Ler é uma maneira suave de esperar”.

Maria Mortatti  

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BORIS SPIVACOW E A QUEIMA DE LIVROS DURANTE A DITADURA MILITAR ARGENTINA / JOÃO SCORTECCI

O editor de livros argentino Boris Spivacow (José Boris Spivacow, 1915 –1994) fundou, no ano de 1966, o CEAL - Centro Editor de América Latina, uma das mais importantes editoras de Buenos Aires e do mundo. Sua destacada atividade no mundo editorial lhe rendeu muitos reconhecimentos e homenagens, incluindo o Prêmio Sul-Americano de Ciências Sociais (1989) e o título de Professor Honorário da Universidade de Buenos Aires (1994). O CEAL nasceu durante a ditadura militar do General Juan Carlos Onganía Carballo, presidente da Argentina, entre 29 de junho de 1966 e 8 de junho de 1970, quando foi deposto por um novo golpe de estado, comandado pelo general Alejandro Agustín Lanusse. A casa editorial funcionou até 1995, ano em que teve de fechar as portas. O CEAL se caracterizou no mercado pela qualidade de seus escritores e pela prática de preços sociais para seus livros. Em 26 de junho de 1980, num terreno vazio de Sarandi – província de Buenos Aires – vários caminhões descarregaram 1,5 milhão de livros – todos publicados pelo Centro Editor de América Latina – que foram queimados numa operação selvagem da ditadura militar argentina. Em “Historia universal de la destrucción de los libros”, o escritor, poeta, ensaísta e diretor da Biblioteca Nacional de Venezuela, Fernando Báez, relata como a escritora argentina Graciela Cabal (Graciela Beatriz Cabal, 1939 – 2004) resumiu o clima que imperava durante a ditadura militar Argentina: “No início tivemos muito medo; eu, cada vez que ia para o CEAL, dizia à minha vizinha de cima que, se até certa hora não retornasse, levasse meus três filhos à casa de minha mãe. Ao mesmo tempo nos acostumávamos a trabalhar nesse contexto de terror. O escritório onde eu me sentava – por exemplo – tinha um buraco, deixado pelo impacto de uma das bombas atiradas contra a editora, e eu colocava os papéis ao lado. De repente, nos chamavam do depósito, avisavam que havia uma batida policial e que vinham para a redação. Nós nos preparávamos, removíamos pastas, escondíamos agendas no jardim, queimávamos documentos. Dizíamos aos vizinhos que íamos fazer um churrasco e queimávamos papéis na banheira, que ficava escura de fumaça. Também as banheiras de nossas casas estavam escuras. Rasguei e queimei muitos livros, e foi uma das coisas das quais nunca pude me recuperar. Destruía e chorava porque não queria que meus filhos me vissem, porque não queria que contassem na escola, porque não queria que soubessem que sua mãe era capaz de destruir livros. Porque sentia muita vergonha.” Na Argentina, no dia 17 de junho, comemora-se o Dia Nacional do Editor, em homenagem ao editor Boris Spivacow, fundador do CEAL – Centro Editor de América Latina.

João Scortecci

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FIGUEIREDO PIMENTEL E A "BELLE ÉPOQUE" CARIOCA / JOÃO SCORTECCI

O poeta, cronista, jornalista, tradutor e autor de literatura infantil Alberto Figueiredo Pimentel (1869 – 1914), nasceu em Macaé, conhecida como a Capital Nacional do Petróleo, município do estado do Rio de Janeiro, distante, aproximadamente, 190 quilômetros da capital. Figueiredo Pimentel manteve por muitos anos, desde 1907, uma seção chamada “Binóculo” na "Gazeta de Notícias", periódico carioca, fundado por Manuel Carneiro, José Ferreira de Araújo e Elísio Mendes, que circulou de 1875 e 1956, chegando a ser um dos principais jornais da capital federal durante a Primeira República. Estreou na literatura, em 1893, com o livro de poesias, de nome “Fototipias”, no sentido de fotografias, imagens, instantâneos, clichês, retratando, então, a “Belle Époque” carioca. É autor da máxima: “O Rio civiliza-se”, slogan que até hoje, ilustra, o espírito carioca. Figueiredo Pimentel obteve grande sucesso entre leitores e leitoras, ditando moda. É considerado o primeiro cronista social da capital. Fototipia na artes gráficas é um processo fotomecânico de impressão que utiliza uma chapa de vidro coberta de gelatina. A técnica foi bastante utilizada nas oficinas de artes gráficas, no início do século XX. Figueiredo Pimentel, publicou, ainda, os livros: “Histórias da avozinha” (conto, 1952); “Histórias da Carochinha” (1894); “Livro mau” (poesia, 1895); O aborto, estudo naturalista (romance e novela, 1893); “O terror dos maridos” (romance e novela, 1897); “Suicida” (romance e novela, 1895) e “Um canalha” (romance e novela, 1895). Morreu jovem, aos 45 anos de idade, no dia 5 de fevereiro de 1914.

João Scortecci

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AFONSO SCHMIDT, REVISTA PAN E A LITERATURA INFANTIL DOS ANOS 1930 / JOÃO SCORTECCI

O jornalista, contista e romancista Afonso Schmidt (1890-1964), um anarquista “de carteirinha”, nasceu na cidade de Cubatão, litoral do estado de São Paulo, em 29 de junho. Fundou ainda jovem o jornal “Vésper” e fez parte da redação dos importantes periódicos libertários, “A Plebe” e “A Lanterna”, ao lado de figuras lendárias do movimento anarquista brasileiro, como Edgard Leuenroth e Oreste Ristori. Escreveu para os jornais “Folha de S. Paulo” e “O Estado de S. Paulo”. Na cidade do Rio de Janeiro, fundou o jornal “Voz do Povo”, que se tornou o órgão de imprensa da Federação Operária. Foi preso – várias vezes – por expressar o que pensava e combateu o fascismo e o clericalismo, por meio de panfletos ou de livros, peças teatrais e artigos de jornais. Recebeu os prêmios: Machado de Assis (1942) e Juca Pato (1963). Sua obra mais conhecida é “São Paulo de Meus Amores”, seleta de crônicas sobre a cidade, lançada em 1954, nas comemorações dos 400 anos da capital paulista. Publicou mais de 40 livros, entre eles "O Menino Filipe" (romance), "A Vida de Paulo Eiró" e "São Paulo de meus Amores" (crônicas), "O Tesouro de Cananéia" (contos) ou "A Primeira Viagem" (autobiográfico). Durante alguns anos, foi também colaborador da “Revista Pan” (1935-1945), semanário de propriedade do meu avô materno, o editor e gráfico José Scortecci. Schmidt assinava a coluna “A Nossa Estante” sobre livros e tendências do mercado livreiro. Em 26 de dezembro de 1935, Ano 1, Número 1, página 40, da PAN, escreveu: “Estamos no período em que a literatura para crianças alcança a maior difusão. Em São Paulo, principalmente, a venda desses livros apresenta aspecto bastante animador. Há autênticas feiras de livros de histórias (...). Cada vitrina de livraria é, com certeza, um deslumbramento para os pequenos leitores. Observa-se, porém, que esse gênero literário tão delicado, tão fino, onde há mundos novos a explorar, não encontra facilmente adeptos (...). Os que produzem há vinte anos são os que ainda hoje produzem, salvando minguadas exceções. O fundo da literatura infantil ainda é constituído pelos velhos Perrault, Lebrun, Conego Schmidt e o formidável Andersen. A literatura para crianças parece alheia às leis da oferta e da procura (...).” Afonso Schmidt morreu no dia 3 de abril de 1964, aos 73 anos de idade. 


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BIBLIOTECA ANCARA, NA TURQUIA / JOÃO SCORTECCI

Istambul, maior cidade da Turquia, antiga Constantinopla, foi a capital do Império Romano (330 – 395), do Império Bizantino (ou Império Romano do Oriente) (395 – 1204 e 1261 – 1453), do Império Latino (1204 – 1261) e, após a tomada pelos turcos, do Império Otomano (1453 – 1922). Istambul, localizada entre o Corno de Ouro – estuário que divide o lado europeu da cidade de Istambul – e o Mar de Mármara – mar interior que separa o mar Negro do mar Egeu –, no ponto em que a Europa encontra a Ásia, foi na Idade Média a maior e mais rica cidade da Europa. A partir de 1923 deixou de ser capital, posto assumido por Ancara, localizada no centro da Turquia, distante 545 km de Istambul. Em 20 de fevereiro de 2020, Ancara inaugurou uma das maiores e mais belas bibliotecas do mundo, com mais de 4 milhões de livros e publicações em 134 idiomas diferentes. Ao todo são 201 quilômetros de estantes de livros, com capacidade de receber 5 mil pessoas. O espaço – 125.000 metros quadrados – está anexado ao complexo presidencial do país e foi idealizado pelo governo turco, junto a intelectuais, ONGs e grupos beneficentes. Parte do acervo foi obtido por meio de doações e, além dos materiais impressos, o acervo on-line disponibiliza 120 milhões de edições digitais de livros e 550.000 e-books.

João Scortecci


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OS RENEGADOS DE TREVISAN / JOÃO SCORTECCI

Todos nós conhecemos um João, um Luiz, um José, um Francisco e um Joaquim. Isso eu afirmo e ainda passo recibo, se precisar. Um detalhe: Luiz com “Z”. O nome “Joaquim” tem origem hebraica e seu significado é "Deus estabeleceu" ou "aquele que Deus elevou". A primeira versão do nome em português surgiu em Portugal, por volta do século XVIII. No Brasil, hoje, existem, cerca de 8.566 pessoas registradas com esse nome. Lendo a biografia do “Vampiro de Curitiba”, o talentoso e reservadíssimo curitibano Dalton Trevisan (1925 –     ) que no dia de ontem, 14 de junho, completou 99 anos de idade, encontrei referências sobre a “Revista Joaquim”, de cunho literário publicada entre os anos de 1946 e 1948 (21 edições) por Dalton Trevisan, Erasmo Pilotto e Antônio P. Walger. A escolha do título e do subtítulo da revista – “Homenagem a Todos os Joaquins do Brasil” –, tinha dupla intenção: popularizar o veículo e fornecer ao leitor um indicativo da principal característica do periódico: esconder as autorias de determinadas ideias. A revista teve colaboradores do porte de Poty Lazzarotto, Temístocles Linhares, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, Guido Viaro, Otto Maria Carpeaux, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Sergio Milliet, Lêdo Ivo e Mario Pedrosa. Também publicou inéditos em português de Louis Aragon, Tristan Tzara, T.S. Elliot, Garcia Lorca, Rainer Maria Rilke, André Gide e Jean Paul Sartre. Dalton Trevisan – não o conheço pessoalmente – é autor premiadíssimo: Prêmio Jabuti (1960, 1965, 1995 e 2011), Troféu APCA (1976), Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2003), Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional (2008, 2015), Prêmio Camões (2012), Prêmio Machado de Assis (2012) e Prêmio do Negrinho (2013). É autor de mais de 50 livros publicados e dois outros, renegados: “Sonata ao Luar” (1945) e “Sete Anos de Pastor” (1948). Detalhe oportuno: na “Revista Joaquim”, número 21, de dezembro de 1948, o escritor, pintor, crítico de arte e tradutor Sérgio Milliet (Sérgio Milliet da Costa e Silva, 1898 – 1966) escreveu crítica sobre um dos livros renegados de Dalton Trevisan: “Sete Anos de Pastor”. Aqui com os meus nervos: talvez, também, renegue dois ou três dos meus livros. Existe um perigo: ninguém esquece de lembrar dos renegados. Para muitos, livros "esgotados" e nada mais.  

João Scortecci  

  

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