O poeta alemão Heinrich Heine (Christian Johann Heinrich Heine, 1797 - 1856) é conhecido na literatura como “o último dos românticos”. Nasceu numa família judia, em Düsseldorf, cidade da Alemanha, conhecida pela indústria da moda, das telecomunicações e pelo cenário artístico e cultural da região. Heine estudou Direito - chegou a frequentar três universidades - mas descobriu muito cedo que gostava mesmo de literatura. Em 1825 converteu-se do judaísmo para o cristianismo luterano, nomeando-se a si próprio pelo nome de Heinrich Heine. Fez a sua estreia literária em 1821, publicando o livro "Gedichte" ("Poemas"). A paixão não correspondida por suas primas - Amalie e Therese - inspiraram-no a escrever, em 1827, o "Livro das canções", sua primeira grande coletânea de versos. Em 1831 trocou a Alemanha por Paris onde sofreu influência dos socialistas utópicos, corrente de “visões e contornos” para as sociedades ideais imaginárias ou futuristas. Seus escritos geraram desconforto nas autoridades alemãs e Heine foi tido como um “subversivo” e sofreu duramente com a censura. Suas obras foram banidas da Alemanha e ele proibido de voltar a viver em sua terra natal. A opção por Paris, a princípio foi voluntária, pois acreditava que encontraria na capital francesa maior liberdade de expressão e maior compreensão de suas ideias, o que de fato aconteceu. Foi um crítico mordaz da religião: "Ópio do povo!" Entre os livros queimados pelos nazistas, em 1933, na Opernplatz - Praça da Ópéra - de Berlim, estavam as obras de Heine. Em 1848 Heine adoeceu devido à sífilis e passou a sofrer de paralisia, praticamente cego, passando os oito últimos anos de sua vida deitado em um colchão. Morreu em Paris, em 1856, aos 59 anos de idade. Em relação à censura sofrida, Heine proferiu uma de suas mais conhecidas citações: “Aqueles que queimam livros acabam cedo ou tarde por queimar homens.”
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LÉLIA ABRAMO – MEMÓRIAS DE VIDA E ARTE / MARIA MORTATTI
Lélia Abramo (São Paulo, 08.02.1911 – 09.04.2004) foi uma premiada atriz de teatro, cinema e TV, produtora teatral, ativista política e cultural brasileira e autora do livro Vida e arte: memórias de Lélia Abramo – com prefácio do professor e crítico literário Antonio Candido, texto de orelha do ator e diretor teatral Sérgio Mamberti e publicado pela Fundação Perseu Abramo e Editora da Unicamp, em 1997. Por meio do relato da memória individual da formação intelectual e artística na família, da “conquistas e derrotas, doenças e amores censurados, sonhos e frustrações”, a autora dá a conhecer momentos importantes da história do Brasil, país onde viveu a maior parte da vida e realizou sua carreira teatral, e da Itália, onde teve de permanecer por 12 anos, durante a Segunda Guerra Mundial, anotando os acontecimentos em diários e agendas – muitas vezes “com as bombas caindo sobre nossas cabeças”. Suas lembranças e anotações, as peças, filmes, novelas em que atuou, as atividades que realizou como atriz e ativista e o registro escrito de suas memórias são também indicadores empíricos de sua contribuição para a memória coletiva.
Filha dos imigrantes italianos Vicenzo Abramo e Afra Iole Scarmagnan, irmã de figuras de destaque do jornalismo, artes, cultura e política do País, como Lívio Abramo, Athos Abramo, Fúlvio Abramo e Claudio Abramo, Lélia participou de grupos amadores de teatro e iniciou a carreira profissional de atriz aos 47 anos, na peça Eles não usam black tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada no Teatro de Arena (SP). Desde então, teve atuação destacada ao longo de sua intensa e extensa carreira profissional, lembrada por seus personagens icônicos. Conviveu e contracenou com grandes nomes do teatro e da cultura brasileiras em diferentes momentos de sua carreira profissional. Participou, como atriz, de 23 peças de teatro de grandes dramaturgos nacionais e internacionais – como Jorge de Andrade, William Shakespeare, Federico Garcia Lorca, Bertolt Brecht, Samuel Beckett, Eugène Ionesco e Henrik Ibsen, Ésquilo –, participou de mais de uma dezena de declamações e leituras dramáticas e realizou atividades como diretora e produtora teatral. No cinema, atuou em 14 filmes, entre os quais, Vereda da salvação, O caso dos irmãos Naves, Beto Rockfeller, Joana, a francesa, Eles não usam black tie. Nas TVs Excelsior, Tupi, Globo e Manchete, participou de 27 telenovelas, 21 “casos especiais”, mais de 40 teleteatros, entre os quais, as novelas Meu pé de laranja lima e Pai herói; os “casos especiais” A casa de Bernarda Alba e O tempo e o vento.
Participou, ainda, de júris de concursos e de prêmios nacionais de dramaturgia, foi conferencista e palestrante em seminários sobre teatro e assuntos culturais, presidiu o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, contribuindo para a regulamentação da profissão – o que lhe custou a demissão da rede Globo e o primeiro infarto –, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, foi figura de destaque na luta contra a ditadura militar no Brasil, deu aulas para grupos de teatro comunitário na periferia da capital paulista e recebeu homenagens, entre as quais a de patronesse da Oficina Cultural Lélia Abramo, na cidade de Araraquara/SP, onde a família Abramo residira no final do século XIX e onde moravam sua meia-irmã Ângela Maria Abramo Longo, seus sobrinhos e sobrinhos-netos.
Pelas atuações e o conjunto de sua obra, Lélia Abramo recebeu mais de uma dezena de prêmios, tais como: Prêmio Saci e Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Prêmio Roquete Pinto, Prêmio Molière, Prêmio Governador do Estado.
Nas palavras de Antonio Candido, frente a tantas “quebras” do nosso mundo, “conforta ler a narrativa de uma vida como a de Lélia Abramo, que nunca vergou a espinha, nunca sacrificou a consciência à conveniência e desde muito jovem se opôs à injustiça da sociedade”. Nas palavras do crítico teatral Gianni Ratto (FSP, 1997): "O que me parece extraordinário em Lélia é a capacidade que ela tem de coordenar uma visão estético-crítica que sempre norteará seu trabalho com a postura sociopolítica que até hoje não a abandona, e, o que mais me surpreende, é que em todas as suas atitudes, talvez sem percebê-lo, é luminosamente suprapartidária". Uma mulher que, apesar das dificuldades que marcaram sua vida e arte, manteve a esperança, como ela mesma afirma nas palavras finais do livro, mencionando a amizade com duas crianças: “Eles serão cidadãos do século XXI. Espero que a aproximação de gerações tão díspares signifique que algo da memória e do passado possa ser mantido no coração do ser humano, como inspiração de solidariedade”.
Maria Mortatti
EU SOU UM LIVRO / JOÃO SCORTECCI
Eu sou um livro. Um exemplar raro do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis, 1839 – 1908), considerado pela crítica literária o maior escritor da literatura brasileira. Fui impresso no ano de 1881, nas Oficinas da Typographia Nacional, na cidade do Rio de Janeiro. Tenho pouco mais de 142 anos de vida, capa ainda em bom estado, páginas amareladas – efeito do tempo – e corpo revestido de muitas histórias. Uma raridade – em primeira edição – com dedicatória do autor e algumas anotações, que lembram tatuagens. Estou catalogado e ocupo lugar de destaque no acervo da biblioteca de um importante bibliófilo paulistano. Tive sorte! Não sei se vocês sabem: nós, os livros, é que escolhemos nossos amigos, protetores e leitores. Um livro impresso em papel – novo ou antigo – precisa de amor, carinho, atenção e cuidados especiais! Antes de ganhar notoriedade de obra rara, passei um longo tempo morando em um sebo “fuleiro”, jogado, literalmente, aos ratos e às traças. Já sobrevivi a um incêndio, escapei de um vazamento de água na cabeça da lombada, sofri ameaça de descarte e de ser – mortalmente – reciclado. Minha morte – anunciada – seria uma tragédia literária! Um crime! Felizmente escapei do pior. Fui resgatado. Nós, os livros, sofremos ataques e destruição por fanatismo religioso e político, vandalismo, maus tratos, contaminação por fungos e bactérias e por ignorância. Minhas páginas estão amareladas e ásperas: o tempo é cruel. É o desgaste natural causado pelos excessos de exposição a luz, umidade, temperatura inadequada e inimigos predadores, como os homens pobres de espírito, cupins, traças e roedores. Nós, os livros, gostamos de ficar em prateleiras limpas, afastados do contato com as paredes e seguros. Ventilação e limpeza são indispensáveis para a nossa sobrevivência. Não gostamos de calor. Com 22 °C está perfeito! Temperatura excessiva – acima de 23 °C – faz com que as fibras de celulose percam as suas propriedades essenciais: elasticidade, flexibilidade e resistência. A umidade relativa do ar não deve ultrapassar 60 %. Iluminação ambiental de 50 watts é a correta. A luz artificial mais utilizada é a fluorescente. Nunca se deve utilizar luz ultravioleta. Ela nos mata! Nosso “dia mundial” é 23 de abril. É a data escolhida pela Unesco para celebrar o livro, incentivar a leitura, homenagear autores e refletir sobre seus direitos legais. Foi escolhida em tributo aos escritores Miguel de Cervantes, Inca Garcilaso de la Vega e William Shakespeare, que morreram em 23 de abril de 1616. Nosso “dia nacional” é 29 de outubro. Foi escolhido por ser o dia do aniversário da Biblioteca Nacional do Brasil fundada em 29 de outubro de 1810, por D. João VI. É a maior da América Latina e uma das 10 maiores do mundo. Datas a serem celebradas todos os dias e por todos nós! Não se ama um livro vez por outra e muito menos com lapsos de memória. Nossas almas são eternas e, quando tocadas, contam histórias, fazem versos, ensinam conhecimento e propagam sabedoria através dos tempos. Eu sou um livro: resiliente, renitente e imortal.
João Scortecci
SÓROR JUANA INÊS DE LA CRUZ E O SUBVERSIVO “AMOR ÀS LETRAS” / MARIA MORTATTI
“Décima musa”, “Fênix da América”, “primeiro grande expoente da cultura colonial mexicana”, “primeira feminista das Américas”, “precursora e profetisa do feminismo mais refinado da atualidade”, “última grande escritora do Barroco hispânico”, são alguns epítetos utilizados em referência à poetisa, dramaturga e filósofa mexicana (nova-espanhola) Juana Inês de La Cruz (12.11.1648/1651 – 17.04.1695).
Filha ilegítima de um oficial espanhol e de uma criolla (descendente de espanhol, nascida na América colonial), Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana nasceu na cidade de San Miguel Nepantla, próxima à Cidade do México, na época capital do Vice-Reino da Nova Espanha (1535 – 1821). Como ela relata em uma de suas obras de caráter autobiográfico – Resposta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz – aprendeu a ler e escrever aos três anos de idade; com seis ou sete anos insistiu com a mãe que a levasse, em trajes masculinos, para cursar universidade na Cidade do México. Não tendo conseguido, desforrou “seu desejo lendo muitos livros da biblioteca do avô” paterno. Ainda adolescente, foi para a capital morar com parentes e continuou, como autodidata, estudando línguas, ciência, filosofia, teologia, entre outros assuntos que eram exclusividade dos homens. Em 1664, o vice-rei a convidou para a corte como dama de companhia e, posteriormente, submeteu seu conhecimento a testes com cerca de 40 renomados estudiosos. Tornou-se, então, admirada e conhecida pela memória, inteligência e erudição. Com aproximadamente 16 anos de idade, ingressou como religiosa no Convento das Carmelitas Descalças. Pouco tempo depois, mudou-se para Convento de Santa Paula, da Ordem de São Jerônimo, onde fez os votos de freira e permaneceu na clausura monástica até morrer de tifo, contraído quando cuidava de outras irmãs do convento.
Não tinha vocação, mas escolheu a vida monástica movida pelo anseio de “ler e mais ler, de estudar e mais estudar, sem outro mestre que os próprios livros” e pelo desejo de “viver sozinha (...) e não ter ocupação obrigatória” – tinha “total aversão ao matrimônio” – nem “rumor da comunidade” que atrapalhasse a liberdade e o sossego de seus estudos. Recusou, assim, posições que, na época, eram destinadas às mulheres – ser esposa ou cortesã –, para se dedicar a atividades masculinas, restritas às universidades e às ordens religiosas.
Em sua cela no convento, reuniu uma imensa biblioteca – considerada uma das maiores do Novo Mundo –, uma coleção de instrumentos científicos e musicais, manteve contato com outros estudiosos e membros influentes da corte e contava com a amizade, proteção e mecenato do vice-rei e da vice-rainha da Nova Espanha. Escreveu e teve publicados poemas líricos e satíricos, peças de teatro, ensaios filosóficos, serviços religiosos encomendados para festividades da Igreja e do Estado. Foi a primeira mulher nascida na América a publicar um livro: Inundación Castálida de la Única Poetisa, Musa Décima, sóror Juana Inés de la Cruz, religiosa profesa en el monasterio de San Gerónimo de la imperial ciudad de México, que en varios metros, idiomas y estilos, fertiliza varios asuntos con elegantes, sutiles, claros, ingeniosos, útiles versos, para enseñanza, recreo y admiración (Madrid, 1689), dedicado à vice-rainha D. María Luisa Conçaga Manrique de Lara, Condessa de Paredes.
A dedicação de Sóror Juana às artes e à ciência, sua ousadia teológica, a insubmissão às regras de um mundo dominado por homens e pela religião e sua defesa da educação das mulheres desagradavam a Igreja católica. A culminância desse “desagrado” se deu com o episódio que originou uma grande polêmica, além de críticas e ameaças diretas a Sóror Juana, feitas pelo bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, na Carta Atenagórica – assinada com o pseudônimo de Sor Filotea da Cruz. Nessa carta, o bispo elogiava o conhecimento da autora no comentário a ela encomendado sobre o Sermão do Mandato (1650), do Padre Antônio Vieira, mas criticava severamente sua dedicação aos assuntos profanos, recomendando que os abandonasse para se dedicar aos assuntos do convento. No ano seguinte, Sóror Juana publicou Respuesta da poetisa à mui ilustre Sor Filotea de la Cruz (Resposta da poetisa à muito ilustre Sor Filotea de la Cruz), com argumentos racionais em defesa de sua produção literária sobre assuntos profanos e da posição da mulher como intelectual. Sob ameaça da acusação de heresia, nos últimos anos de vida parou de escrever e doou sua biblioteca, instrumentos científicos e musicais e outros bens. Apresentou depois à Santa Inquisição pedido de misericórdia e perdão, dedicando-se, até a morte, a duras penitências e aos serviços de caridade.
Entre os mais de 400 textos que Sóror Juana escreveu, estudiosos de sua obra e alguns críticos literários destacam a importância de: “Primero sueño” (“Primeiro sonho”) – com 975 versos, publicado por volta de 1685 –, que aborda a busca incontida da alma pelo conhecimento; e Respuesta a Sor Filotea, publicada no terceiro volume das obras completas, Fama y Obras Posthumas del Fénix de Mexico (Fama e Obras Póstumas da Fênix do México), editado por Juan Ignacio de Castoreda (Madri, 1700; 2ª ed. 1714.)
Ao longo do século XX, a vida e a obra da "Fênix da América" foram “redescobertas” e divulgadas em outras publicações, em especial: a do poeta e intelectual mexicano Alfonso Méndez Plancarte, publicada entre 1951 e 1957; e a do escritor mexicano Octavio Paz, Sor Juana Inés de la Cruz o Las trampas de la fe (Sóror Juana Inês de La Cruz e as armadilhas da fé), de 1982, que contém biografia intelectual e análise da obra de Sóror Juana. É considerada “a obra fundamental para entendê-la como poetisa, filósofa, 'primeira feminista das Américas' e pioneira na 'posição do poeta moderno frente ao cosmos, que depois, dois séculos mais tarde, Mallarmé vai revelar num poema essencial'”.
No Brasil, a primeira tradução de um poema – “El divino narciso” – de Sóror Juana foi publicada em 1945, pelo poeta Manuel Bandeira. O livro Letras sobre o espelho (Iluminuras, 1989), organizado e apresentado por Tereza Cristófani Barreto, contém poemas de Sóror Juana com traduções da organizadora e de Vera Mascarenhas de Campos. Em 2023, foi publicada a coletânea Poesia selecionada (Machado), com tradução de Alex Cojorian e apresentação de Sara Poot-Herrera. Mais recentemente, devido aos avanços dos movimentos feministas e ao debate sobre os direitos das mulheres, dados biográficos, textos e análises da obra de Sóror Juana vêm sendo divulgados em vários idiomas, em sites na Internet, artigos e estudos acadêmicos, além de filme, documentário e série em streaming.
Conseguiram julgar, acusar e silenciar temporariamente Sóror Juana Inês de La Cruz, porém, passados mais de três séculos, permanece viva sua defesa do direito das mulheres à educação e ao conhecimento. A obra excepcional que criou, ultrapassando os limites daquele contexto colonial americano, continua fecundando a esperança de que as mulheres não tenham de pedir permissão para existir, pensar, estudar e realizar sua vocação intelectual e seu subversivo “amor às letras”.
Maria Mortatti
GERMAINE KELLERSON: UMA POETA E PACIFISTA FRANCESA / MARIA MORTATTI
A poeta, escritora e pacifista francesa Germaine Kellerson (Périgueux, 1890 – Sarliac, 1978) nasceu e viveu da região de Périgord, no Sudoeste da França. Em esparsas informações disponíveis na Internet, seu nome é mencionado como filha do industrial e inventor Francisque Chaux, esposa do professor universitário Joseph Kellerson – com quem teve dois filhos, Robert e Francis –, humanista, “embaixadora da humanidade”. No contexto de instabilidade política da Terceira República Francesa (1870 – 1940) e nos períodos conturbados da Primeira Guerra Mundial, do entreguerras, da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, ela trabalhou intensamente em movimentos em defesa da paz, da liberdade, dos direitos das mulheres e do voto feminino e produziu a obra literária, fazendo sua voz ecoar para além dos limites regionais, assim como outros escritores franceses.
Entre as décadas de 1920 e 1950, fundou o Centro da Nova Europa e o Clube de Pequenos Europeus de Paris; presidiu a Aliança Federalista de Mulheres pela Paz, a União Econômica e Federal Europeia e a Liga dos Estados-Unidos da Europa; participou, como representante francesa, do Congresso da Liga Internacional de Mulheres pela Paz, em Dublin, Irlanda, da primeira reunião da Liga de Ação Feminina pelo Sufrágio das Mulheres, em Paris, proferiu palestras literárias na Sociedade de Escritores Provinciais e se correspondeu com escritores, entre os quais o alemão Thomas Mann. Também publicou textos ou teve sua obra divulgada em jornais e revistas, como: La Voix des Femmes (A voz das Mulheres), jornal “feminista, pacifista, socialista e internacionalista”; L'Éveil des Peuples (O Despertar do Povo), jornal fundado em 1932 pelo católico progressista Marc Sangnier; L'Egyptienne (A Egípcia): “revista mensal: feminismo, sociologia, artes”; L'Intransigeant (O Intransigente), jornal fundado em 1880 – inicialmente de esquerda e, na década de 1920, de direita; e nos periódicos Hommes et Mondes (Homens e Mundos), L'Aube (Alvorecer), La Jeune République (A Jovem República), La Voie de la Paix (A Via da Paz).
É autora de seis livros de poesia e prosa – ilustrados e com várias edições, alguns encontrados em sebos ou digitalizados pela Sociedade FeniXX –, além de prefácios, ensaios e biografias. Seu livro de estreia literária, Inquiétudes – poèmes en prose (Inquietudes – poemas em prosa) (1929), com prefácio do escritor André Lamandé e litografias de Lucien de Maleville, foi publicado em Paris, pela Éditions La Caravelle, em edição de “grand luxe” e tiragem de 200 exemplares. Na década de 1930, foram publicados Le chant de la vie – roman (O Canto da Vida) (1935), por Corréa Éditeur, Paris, dedicado aos dois filhos da autora e aos futuros netos; e Rose-Pimpim – roman pour grandes fillettes (Romance para meninas grandes), pela Édition du Périgord Noir. Nas década de 1940, foram publicados Poèmes de la fin du jour (Poemas do fim de dia) (1943), com prefácio do poeta Charles Vildrac, pela editora Pierre Fanlac, de Périgueux, na série Le Cahiers de Province; e Ne pas se taire..., souvenirs des temps maudits (Não se cale..., lembranças de tempos malditos) (1946), pela Éditions du Périgord Noir, contendo relatos de testemunhos pessoais do período sombrio da guerra. Seu último livro, Le Journal de Jeantou (O diário de Jeantou) (1951), foi publicado pela Librairie Gedalge, Paris, com a dedicatória: “Em memória de Antoinette Lamandé, que era minha amiga e Mané do pequeno Jeantou”.
Nas palavras do historiador de Périgueux, Jean-Claude Bonnal, “É antes de tudo a poesia que permitirá a essa grande humanista transmitir ternura e generosidade”. Para o historiador, escritor e poeta Paul Mourousy, "Esta mulher cujo coração, sensibilidade e inteligência escolheram entre o egoísmo do artista e o sacrifício do apóstolo, trabalha noite e dia pela paz. Ela faz parte desta elite que transmite uma tocha da qual emergirá, queiramos ou não, o gênio e a felicidade dos futuros europeus”. Para o escritor André Lamandé, prefaciador de Inquiétudes, esse livro: "é como um tenro ninho de pombas feridas pelo amor" que “é um estado permanente, uma invasão do ser por inteiro – espírito e carne”. Nas palavras do poeta e escritor Charles Vildrac no prefácio de Poèmes de la fin du jour, “a poesia de Madame Germaine Kellerson é despojada de artifícios vãos e seduções da moda (...) é pela qualidade do timbre que ela nos toca.” Segundo comentários publicado nos jornais La République e La Femme de France (A mulher da França), O Canto da Vida é um “livro angustiante” em que, contra os perigos de seu tempo, a voz da autora “subiu tão pura e tão alta”.
Apesar desses registros e reconhecimentos de sua atuação e sua obra, Germaine Kellerson é ainda pouco conhecida na França e desconhecida no Brasil e em outros países. Foi-me apresentada pelo poeta e pesquisador franco-brasileiro Michel Thiollent, por meio dos livros Inquiétudes e Poèmes de la Fin de Jour, cuja leitura me instigou a buscar, reunir e fazer tradução livre de informações dispersas em sites da Internet e de títulos e trechos de livros disponíveis em sebos ou bibliotecas digitais. Como a de muitas mulheres que se dedicaram à defesa do direito à voz, a produção literária de Germaine Kellerson ainda está por ser traduzida, estudada e avaliada no contexto de efervescência artística e intelectual de sua época e como representante não apenas da literatura regional de Périgord, mas também da escrita feminina francesa em meio às vozes masculinas das vanguardas europeias do início do século XX, como surrealismo, dadaísmo, cubismo/futurismo, modernismo.
Não se podem calar as inquietudes, o canto da vida, as lembranças de tempos sombrios, o amor como “estado permanente” também na busca da paz, que ecoam, ainda hoje, na voz de Germaine Kellerson, que assim deixa registrado em seu “Testament” poético e humano, no livro Poèmes de la Fin du Jour: “Lorsque je serai morte, reste fidèlement l’écho vivant de mon message : ‘Il n'est pas d'autre verité que celle de savoir aimer’.” (“Quando eu morrer, permaneça fielmente o eco vivo da minha mensagem: ‘Não há outra verdade senão a de saber amar’.”)
Maria Mortatti
RICARDO RAMOS – GOSTAVA DELE AOS TRANCOS E BARRANCOS! / JOÃO SCORTECCI
Conheci o jornalista e escritor Ricardo Ramos (Ricardo de Medeiros Ramos, 1929 – 1992), em 1978, numa quarta-feira, na sede da UBE – União Brasileira de Escritores, na Rua 24 de Maio, 250, no centro da cidade de São Paulo, entre as praças da República e da Sé. Chegávamos cedo, aos poucos, por volta das 17 horas. A sede da entidade ficava no 13º andar, num imenso salão de 459 m², pertencente ao INSS. No espaço: na entrada, à direita, uma sala de diretoria, com uma mesa de reunião, em que cabiam – apertado – 16 pessoas, duas poltronas perto da janela, estante com livros; uma secretaria conjugada à sala, com duas mesas e alguns arquivos de aço administrados pelos incansáveis Caio Porfírio Carneiro e Lauro Vargas; um salão principal, com sofás, formando três ambientes; à esquerda, um pequeno auditório para 40 lugares; banheiros, no final do salão; e, ocupando todo o espaço do fundo do salão, uma pequena cozinha e o inesquecível “Bar do Franco”, ponto de encontro de intelectuais e artistas, onde bebíamos uísque cowboy e comíamos pastel de queijo de higiene duvidosa. Ninguém morreu: que eu saiba! Íamos embora tarde da noite, em pequenos grupos, por questão de segurança ou para jantar fora – e continuar bebendo – na madrugada paulistana. Ricardo Ramos publicou dezenas de livros. Foi publicitário, editor, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing e o idealizador do Prêmio Nestlé de Literatura. Ganhou, por três vezes, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, com as obras: “Os caminhantes de Santa Luzia” (1960), “Os desertos” (1962) e “Matar um homem” (1971). Era um contador de causos e não perdia uma boa piada, por nada deste mundo. Sempre aprontava! A lista de travessuras é grande! Vez por outra, aos sábados, nos reuníamos na casa do professor e crítico literário Fábio Lucas, na Vila Mariana. Bebíamos, jogávamos conversa fora e depois saíamos para comer feijoada no “Livorno”, da Rua Vergueiro. No lançamento do seu livro “Desculpe a nossa falha” (1991), fui presenteado com um exemplar. Ricardo Ramos me chamou de lado e disse, apontando para a sua foto na orelha do livro: “Scortecci, gosto muito desta foto. Quero ser lembrado por ela!”. Ricardo Ramos morreu jovem, com 63 anos de idade. Estivemos juntos, pela última vez, numa noite inesquecível, na casa do amigo comum José Carlos Garbuglio, que recepcionava, na época, um casal de professores franceses. Lembro-me dos dois assuntos da noite: Plano Collor, que havia nos deixado na maior pindaíba, e Jacques-Yves Cousteau (1910 - 1997) e suas viagens de pesquisa, a bordo do poderoso Calypso. “Aqui na minha casa – foi o que Garbuglio nos disse – podemos meter o pau em qualquer desgraçado deste mundo, vivo ou morto, menos no Cousteau!”. Risos. Ricardo Ramos já estava doente. Naquela noite, a meia garrafa de uísque que bebeu lhe fez mal. Estranhei. Depois, quando a doença veio de vez, entrou em depressão e se isolou. Calou-se! Nem telefone atendia. Faleceu no dia 20 de março de 1992. Juntei os amigos próximos e imprimimos, na Gráfica Scortecci, um pôster com mensagens e a foto que ele adorava. Em sua homenagem, providenciamos, também, junto à Prefeitura Municipal de São Paulo, a indicação para uma praça com seu nome, nas proximidades da Avenida Sumaré, em São Paulo. O seu velório foi na Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche. Sua morte foi notícia em toda a mídia. No “Jornal Hoje", da Globo, sua última travessura. Alguém duvida? O apresentador deu a notícia do falecimento, leu sua biografia (invejável) e mostrou, erroneamente, não a sua foto de que ele tanto gostava, mas a foto de José Carlos Garbuglio. Este escritor, que assistia ao noticiário da Globo – foi o que me contaram, depois – quase morreu do coração. A foto do post de hoje é a de que Ricardo Ramos gostava e, com ela, imortalizou-se. "Gostava dele aos trancos e barrancos!" foi o que escrevi no pôster, hoje peça integrante da memória de Scortecci.
João Scortecci
MÉCIA DE SENA: UMA ESCRITA DE RESISTÊNCIA / MARIA MORTATTI
A escritora, tradutora, epistológrafa e professora portuguesa Maria Mécia de Freitas Lopes (Leça da Palmeira, 16.03.1920 – Los Angeles, 28.03.2020), de família de músicos e historiador, aprendeu piano e línguas estrangeiras, leu clássicos da literatura, formou-se em piano pelo Conservatório de Música do Porto e em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Lisboa, foi professora do ensino secundário, traduziu clássicos da literatura – assinando seus primeiros trabalhos como Freitas Lopes. Em 1949, casou-se com o poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor Jorge Cândido de Sena (Lisboa 02.11.1919 – Santa Barbara, Califórnia, 04.06.1978), também de família da alta burguesia portuguesa, tocava piano, era leitor e poeta desde jovem, engenheiro civil de formação e profissão, que se tornou tradutor de dezenas de obras em vários idiomas e professor catedrático na área de literatura em faculdades no Brasil – naturalizou-se brasileiro em 1963 –, e em universidades nos Estados Unidos da América.
LAÉSSIO, O LADRÃO DE LIVROS / JOÃO SCORTECCI
Vez por outra ele volta e dá o ar da graça. Não desiste nunca! Já esteve preso mais de cinco vezes, talvez mais. Não encontrei o seu histórico de crimes, sua ficha corrida. Disse-me um amigo: “Não tem cara de ladrão!”. Respondi: “Também pudera! Roubar livros não é para qualquer pé rapado!” Laéssio Rodrigues de Oliveira é conhecido e famoso no mundo dos livros. Nasceu em Teresina, no Piauí, em 15 de janeiro de 1973. Ainda criança mudou-se com a família do Piauí para São Bernardo do Campo, na região do ABCD paulista. Seu pai trabalhava como eletricista. Bebia muito e acabou morrendo atropelado em uma rodovia. Sua mãe ainda vive. Aos 15 anos de idade, assumiu-se gay. Desde criança, é fissurado por gibis e jornais. Conversa com conhecimento sobre cinema, música e livros raros. Na adolescência, apaixonou-se pela atriz e cantora Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha, 1909 – 1955) e, desde então, coleciona tudo que pode sobre a cantora. Para alimentar a compulsão de fã, passou, então, a furtar documentos e livros raros. O primeiro crime aconteceu no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo: roubou um exemplar da revista “Fon Fon”, da década de 1940, com o rosto de Carmen Miranda na capa. No ano de 1996, aos 23 anos de idade, conheceu seu primeiro cliente, o escritor e musicólogo Abel Cardoso Júnior (1938 – 2003), radicado em Sorocaba, interior de São Paulo, autor do livro sobre Carmen Miranda, “A Cantora do Brasil”. Declarou, quando foi detido: “Vendi todo meu acervo para ele. Larguei um emprego na prefeitura para viver disso”. Na virada do século, resolveu empreender: comprou uma barraca na Feirinha do Bixiga, reduto de colecionadores de antiguidades na cidade de São Paulo. Aconselhado por clientes, resolveu, então, trabalhar com documentos raros e livros antigos. É acusado de crimes nos estados da Bahia, Pará, Paraná e São Paulo. Declarou, ainda: “Para pegar livro, não é preciso matar ninguém, sequestrar ninguém. Sou alheio a violência, não gosto de violência”. Foi preso diversas vezes, com condenações que somam mais de 10 anos. Cumpriu pena no sistema prisional de Bangu, durante cinco anos. Durante o período que esteve em Bangu, montou uma biblioteca na penitenciária, depois de solicitar doações a diversas editoras. Recebi, na Scortecci Editora, um pedido seu de doação. Não atendi. Laéssio Rodrigues de Oliveira está solto, novamente. Foragido? Não sei. No último dia 27 de fevereiro de 2026, esteve na sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – entidade fundada em 1894, dedicada à preservação e ao estudo da história paulista –, onde se apresentou como pesquisador, assinou livros de visita, mas acabou sendo reconhecido pelo presidente da instituição, o Prof. João Tomás do Amaral. O ladrão de livros desconfiou e fugiu, antes da chegada da polícia. Laéssio não desiste nunca. Vai voltar! Comentário do amigo sobre o famoso ladrão de livros, Laéssio Rodrigues de Oliveira: “Antes de levá-lo preso quero uma selfie com o homem, hoje com 53 anos de idade.”. Repito: roubar livros não é para qualquer intelectual. Precisa ser esperto! Um bibliocleptomaníaco raiz.
João Scortecci
O BIBLIOTECÁRIO BASTOS TIGRE / JOÃO SCORTECCI
O poeta, jornalista, publicitário e bibliotecário Manuel Bastos Tigre nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 12 de março de 1882. Estudou no Colégio Diocesano de Olinda e se diplomou engenheiro pela Escola Politécnica de Pernambuco, em 1906. Trabalhou como engenheiro da General Electric e foi ajudante de geólogo no Departamento de Obras Contra as Secas, no Ceará. Foi homem de múltiplos talentos e em todas as áreas obteve sucesso, especialmente como publicitário. É dele o slogan da Bayer que correu o mundo, garantindo a qualidade dos produtos daquela empresa: "Se é Bayer é bom". Como engenheiro, resolveu fazer aperfeiçoamento em eletricidade, nos Estados Unidos da América do Norte. Lá, conheceu o bibliotecário Melvil Dewey (Melville Louis Kossuth Dewey, 1851 – 1931), que instituiu o Sistema de Classificação Decimal, referência na área até os dias de hoje. Esse encontro foi decisivo na vida de Bastos Tigre. Em 1915, aos 33 anos de idade, abandonou a engenharia para trabalhar com a biblioteconomia. Naquele ano, prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional do Rio de Janeiro, com tese sobre a aplicação do Sistema de Classificação Decimal de Dewey. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil (hoje, Biblioteca Pedro Calmon, instituída pelo Decreto-Lei n. 8393, de 17 de dezembro de 1945), onde atuou como diretor por mais de 20 anos, até sua morte. Lendo a biografia do bibliotecário americano Melvil Dewey, descobri a razão e o motivo da paixão de Bastos Tigre pelos livros. Dewey descreveu, nos seguintes termos, como a ideia da Classificação Decimal lhe aflorou ao espírito: "Durante meses imaginei, noite e dia, que deveria haver, em alguma parte, uma solução satisfatória. No futuro teríamos milhares de bibliotecas, a maioria das quais aos cuidados de pessoas com pequena capacidade ou escasso adestramento. O primeiro requisito da solução há de ser a maior simplicidade possível. O provérbio dizia 'simples como a, b, c', mas ainda mais simples do que isso era 1, 2, 3. Após meses de estudo, um domingo, durante um longo sermão do pastor Stearns, enquanto o encarava com firmeza sem lhe ouvir uma palavra, e absorvida a mente no problema vital, a solução coruscou-me ante os olhos, a ponto de fazer-me saltar da minha cadeira e de quase levar-me a gritar: EURECA! (...)”. Bastos Tigre exerceu a profissão de bibliotecário por 40 anos e é considerado o primeiro bibliotecário por concurso, no Brasil. No dia 12 de março é comemorado o Dia do Bibliotecário, que foi instituído em sua homenagem, pelo Decreto nº 84.631, de 9 de abril de 1980. Manuel Bastos Tigre, morreu no dia 2 de agosto de 1957, na cidade do Rio de Janeiro, aos 75 anos de idade. É dele esta frase que expressa sua paixão pelos livros e pela organização do conhecimento: “Se uma hecatombe universal destruísse a civilização, uma biblioteca que escapasse, bastaria para reconstruí-la”.
João Scortecci
NA TRAVESSIA DO DESERTO DO MUNDO, COM SOPHIA ANDRESEN / MARIA MORTATTI
“Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar/ (...) Nada pode apagar/ O concerto dos gritos” são versos da célebre “Cantata da Paz”, da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (06.11.1919 – 02.07.2004). O poema foi escrito para a vigília em que ela e um grupo de católicos progressistas, reunidos na noite de 31 de dezembro de 1968, na igreja de São Domingos, em Lisboa, manifestavam-se pela paz e contra as guerras. O poema faz referência à bomba de Hiroshima, à guerra do Vietnã, à guerra colonial portuguesa na África – iniciada durante o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, em Portugal. Foi musicado e gravado, em 1970, pelo ex-padre Francisco Fanhais, tornando-se uma das canções de protesto mais conhecida em Portugal até a Revolução do Cravos, em 25 de abril de 1974, que encerrou a ditadura do Estado Novo.
De formação aristocrática e católica, Sophia Andresen dirigiu movimentos universitários na Universidade de Lisboa – onde cursou, sem concluir, Filologia Clássica –, participou de círculos literários portugueses com escritores renomados, como Jorge de Sena, foi indicada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista e foi a primeira poetisa portuguesa laureada com o Prêmio Camões (em 1999), além de outros prêmios e homenagens que recebeu.
Publicou dezenas de livros – também para crianças – de poesia, contos, peças de teatro, ensaios e traduções de clássicos da literatura inglesa, italiana, francesa, grega e teve sua poesia traduzida para italiano, inglês, alemão. Conforme críticos literários e estudiosos de sua obra, a poesia andreseniana é marcada pela influência clássica, tratando de forma enxuta, clara e com equilíbrio formal de temas clássicos, existenciais e políticos, como justiça, moral humanista, natureza, mar, memórias, amor.
Manteve também diálogo com escritores e culturas de outros países, entre os quais o Brasil, que visitou nos anos 1960. Viajou por alguns estados do País e se encantou com as belezas naturais, com o português brasileiro, com a cidade de Brasília e com poetas, como João Cabral de Mello Neto e Manuel Bandeira – aos quais dedicou poemas de seu livro Geografia, de 1967 –, Cecília Meireles – sobre a qual escreveu ensaio e poema – e Murilo Mendes, entre outros.
Foi por meio da Antologia da poesia portuguesa contemporânea (Ohno-Kempf, 1982), organizada pelo poeta e escritor brasileiro Carlos Nejar, que conheci a poesia de Sophia Andresen. Entre os de 40 autores apresentados pelo organizador, estão 12 de seus poemas, recolhidos de livros publicados de 1944 e aos anos 1970. São poemas breves, sintéticos, de beleza contundente, como “Cante jondo”: “Numa noite sem lua o meu amor morreu/ Homens sem nome levaram pela rua/ Um corpo nu e morto que era o meu.” Continuou publicando até alguns anos antes de sua morte e, aos poucos, pude conhecer e me encantar com outros poemas que li em alguns de seus livros mais recentemente publicados por editoras brasileiras, como Coral e outros poemas (Companhia das Letras, 2018), com seleção do poeta Eucanaã Ferraz e em que se encontra um de meus poemas preferidos: “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, de Livro Sexto, de 1962.
Depois de ver, ouvir e ler Sophia Andresen, não se pode ignorar o concerto poético que ela nos oferece. Nestes tempos de tantas outras guerras, tragédias humanitárias e povos destruídos, seu apelo pela paz e liberdade e a beleza de sua poesia continuam ecoando e nos convocando para com ela “atravessar o deserto do mundo/ Para enfrentarmos juntos o terror da morte/ Para ver a verdade para perder o medo.”
Maria Mortatti
O EDITOR E TIPÓGRAFO ALDO MANUZIO E O LIVRO DE BOLSO / JOÃO SCORTECCI
"Encheiridion" (do grego "enkheiridion" / "em-mão") significa livro portátil, livro de bolso: aceito, interessante, mas incompreendido por muitos. Encontrei o termo "encheiridion" lendo a biografia do editor e tipógrafo italiano Aldo Manuzio (Aldo Pio Manucio, 1449 – 1515), a quem se atribui a “invenção” do livro de bolso, sendo, portanto, considerado o precursor do livro de bolso moderno. A definição de livro de bolso – nos dicionários e na Internet – é genérica, vaga, valendo-se, determinantemente, quanto ao formato e ponto. Formatos mais usados: 10,5x14,8cm, 11x18cm e 12x18cm. Na coleção Primeiros Passos, sucesso editorial da Editora Brasiliense, dos anos 1980, foi usado o formato 11,5x16cm. No Brasil, hoje, as editoras e gráficas usam, quase sempre, o formato 12x 18cm, com mancha de 9,8cm, o dobro das medidas de uma coluna padrão de jornal. Confesso: tenho visto de tudo. As características técnicas de um livro de bolso – capa flexível, papel comum, preço popular – deixaram, praticamente, de existir. Hoje, o mercado publica livros de bolso com encadernação de luxo, capa dura, papel de qualidade, reserva de verniz e relevo. No século XIX, na Europa, já existiam edições baratas, como as da editora alemã Tauchnitz e a inglesa Routledge’s Railway Library, com publicações voltadas para viajantes, mas o "boom" veio depois, em 1931, com a editora alemã Albatross Books, em 1935, com a editora britânica Penguin Books, e, em 1939, com a americana Pocket Books. Durante a Segunda Guerra Mundial, estima-se que a Alemanha tenha queimado mais de cem milhões de livros. As forças aliadas, por sua vez, apostaram no poder de entretenimento dos livros, para que seus soldados suportassem melhor a guerra, e decidiram, então, enviar-lhes companheiros literários. Foi assim que o livro de bolso, na época batizado de “Edições para as Forças Armadas” ganhou escala, com tamanho e peso reduzidos, para que os soldados pudessem guardá-los nos bolsos dos uniformes ou em suas mochilas. Os livros de bolso – até hoje – sofrem preconceito por parte de muitos: autores, editores, livreiros e leitores. As razões? Muitas. Listá-las, algo impossível. Já escutei de tudo. Na minha opinião nada conclusivo, que justifique a aversão. O tipógrafo Aldo Manuzio imprimiu cerca de 150 títulos. Inovou suas edições com o uso da letra cursiva, estilo de escrita manual. Desenvolveu o conceito de coleções temáticas, de identidade e coesão visual para livros. Contribuiu para a padronização do uso da pontuação, incluindo a vírgula e o ponto e vírgula e, criou, ainda, um Conselho Editorial, responsável pelas diretrizes básicas de suas publicações. Em 1494, em Veneza, junto com o tipógrafo e editor italiano Andrea Torresano (1451 – 1528), fundou a Aldina Press (Prensa Aldina), onde foram publicadas as célebres edições aldinas dos clássicos. A Prensa Aldina é famosa na história da tipografia, entre outras coisas, pela introdução do itálico. Aldo Manucio dedicou a parte final de sua vida à publicação e disseminação de textos raros e à preservação de manuscritos gregos. Acreditava que obras de autores como o filósofo Aristóteles e o dramaturgo Aristófanes, em sua forma original em grego, eram mais puras e fiéis, sem as interferências de traduções. Tudo isso lhe rendeu respeitabilidade como editor e tipógrafo e um lugar de destaque na história do livro.
João Scortecci
ANTÔNIO HOUAISS E O "ENTERRO DOS OSSOS" / JOÃO SCORTECCI
Ricos e pobres – cada um na sua – costumam, depois das festas de final de ano, celebrar, em data única, o enterro dos ossos! Sempre sobra alguma coisa. Verdade. No Ceará dos anos 1960, a carcaça do peru desfiado na véspera, enriquecia a canja das almas, e as sobras, a farofa de ovo. Farofa vitaminada, dizíamos. Na virada do Ano Novo, era a vez dos ossos do pernil de porco. Farra gastronômica! Todo ano a mesma promessa: muita comida! Desperdício. E as sobremesas: pudim de leite, pavê, manjar branco com calda de ameixa, doce de leite com queijo e sorvete de chocolate. “Enterro dos ossos”, no Dicionário Houaiss significa “banquete, aproveitando o que sobrou”. O amigo Antônio Houaiss era um “crânio”, brilhante. Gostava de contar causos gastronômicos e, quando o fazia, usava toda a maestria de um filólogo gourmet. No final dos anos 1980, eu, Houaiss e o escritor e artista plástico Enio Squeff, depois de uma reunião na UBE – União Brasileira de Escritores, fomos comer uma “pasta” no restaurante Gigetto, na capital paulista. O Mestre Houaiss adorava pratos exóticos, impróprios, explosivos, diferentes. Perguntei-lhe: “Qual de todos lhe foi mais difícil comer?”. Houaiss, na lata, respondeu: “Cérebro de macaquinho vivo!”. Depois, sem pressa, fatiou-nos com sabedoria e inteligência sua cerebral aventura, num pequeno país do leste europeu. O estômago virou, confesso. O povo do restaurante, vizinhos de mesa e até os garçons fecharam o cerco para saborear a sua preciosa contação. Privilégio escutá-lo. Desisti da “pasta”. Houaiss, não. Comeu com gosto. Raspou o prato. Tarde da noite, o restaurante se esvaziou e tivemos – infelizmente – que ir embora. “Sobremesa?” “Não”, respondi. Talvez tenha sido a única vez na vida confesso – em que recusei um pudim de leite, um petit gateau ou um Romeu e Julieta. Lá fora – na paulicéia desvairada – acontecia uma prévia alvorada. Mestre Houaiss nunca mais se repetiu na minha vida. Houaiss faleceu no dia 7 de março de 1999, aos 83 anos de idade. Lembro-me de um assunto daquela noite. Disse-nos: “Quero viver para o enterro dos ossos da virada do século!”. Não deu tempo. Bateu na trave. Bateu saudade. Bateu no tempo dos ossos e ainda dói.
João Scortecci
BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS: A LEITURA PARA QUEM AINDA NÃO APRENDEU A LER / JOÃO SCORTECCI
Morre o líder, morre a ideia! Triste isso. Sina? Talvez. Lendo sobre o trabalho do escritor e professor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944 – 2012), deparei com o manifesto escrito por ele, “Movimento por um Brasil Literário" ( MBL), do ano de 2009. Encontrei o manifesto completo na página de uma associação que, na época, apoiou o movimento. Encontrei, também, o endereço do movimento na Internet, mas fora do ar. No endereço (brasilliterario.org.br) localizei algo sobre como funciona o Sisu, o processo de seleção para a universidade e uma explicação de como participar do processo de Inscrição do Sisu. Nada sobre o MBL, infelizmente. O que consegui apurar: "O Movimento por um Brasil Literário (MBL) encerrou formalmente suas atividades devido à falta de recursos financeiros para manter suas ações. Com um manifesto escrito por Bartolomeu Campos de Queirós, em 2009, o movimento buscava transformar o Brasil em uma sociedade leitora, defendendo a literatura como um direito fundamental". E nada mais. Bartolomeu Campos de Queirós, faleceu três anos depois do manifesto, no dia 16 de janeiro de 2012, com 67 anos de idade, devido a complicações de uma insuficiência renal crônica. Tudo, então, saiu do ar, perdeu o ânimo, morreu junto. Não conheci Bartolomeu Campos de Queirós, pessoalmente. Uma pena. Dói saber que o perdi. Publicou mais de 40 livros, formou-se em Educação e Artes, cursou o Instituto de Pedagogia em Paris e participou de importantes projetos de leitura no Brasil, como o ProLer – Programa Nacional de Incentivo à Leitura, iniciativa criada em 1992, vinculada à Fundação Biblioteca Nacional, que visa promover o acesso e o hábito da leitura, formando mediadores e fortalecendo a cultura de leitura em todo o País. O ProLer – foi o que descobri na Internet – ainda existe, mas anda sumido do meio, perdeu força, infelizmente. Lembro do lançamento do ProLer. Na época estava na diretoria executiva da Câmara Brasileira do Livro. Bartolomeu recebeu os prêmios: Grande Prêmio da Crítica em Literatura Infantil/Juvenil pela APCA, Jabuti, FNLIJ e Academia Brasileira de Letras. Em 2008, foi entrevistado pelo Museu da Pessoa, como parte do projeto “Memórias da Literatura Infantil e Juvenil”, e expôs sua relação com as palavras: “A minha contínua busca por novas palavras foi o meu exercício de infância”. Confesso: seu depoimento mexeu comigo. Sou, desde a adolescência, um apaixonado pela descoberta de novas palavras. Tenho paixão por dicionários e os coleciono aos montes. Alguns, até repetidos. Sou exagerado! Pesquisando sobre formação de leitores e hábito de leitura, encontrei na Internet um pequeno texto do humanista Bartolomeu Campos de Queirós: “Ler é inteirar-se de outras proposições, é confrontar-se com outros destinos, é transformar-se a partir da experiência, vivenciada pelo outro e referendada pelo fruidor. Existe, pois, ação educativa maior do que esta de formar leitores?”. Texto incrível, diz tudo! Abri o bloco de notas e guardei a palavra "fruidor": quem ou o que frui de algo. Tem origem na palavra "fruir", mais o sufixo "dor". Dói saber que o perdi. Eu e as proposições do dia. Segue o manifesto do MBL, na integra: “O Movimento por um Brasil Literário manifesta sua intenção de concorrer para fazer do País uma sociedade leitora. Reconhecemos como princípio o direito de todos de participarem da produção também literária. No mundo atual, considera-se a alfabetização como um bem e um direito. Isto se deve ao fato de que com a industrialização as profissões exigem que o trabalhador saiba ler. No passado, os ofícios e ocupações eram transmitidos de pai para filho, sem interferência da escola. Alfabetizar-se, saber ler e escrever tornaram-se hoje condições imprescindíveis à profissionalização e ao emprego. A escola é um espaço necessário para instrumentalizar o sujeito e facilitar seu ingresso no trabalho. Mas pelo avanço das ciências humanas compreende-se como inerente aos homens e mulheres a necessidade de manifestar e dar corpo às suas capacidades inventivas. Por outro lado, existe um uso não tão pragmático de escrita e leitura. Numa época em que a oralidade perdeu, em parte, sua força, já não nos postamos diante de narrativas que falavam através da ficção de conteúdos sapienciais, éticos, imaginativos. É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia. Na literatura que, liberto do agir prático e da necessidade, o sujeito viaja por outro mundo possível. Sem preconceitos em sua construção, daí sua possibilidade intrínseca de inclusão, a literatura nos acolhe sem ignorar nossa incompletude. É o que a literatura oferece e abre a todo aquele que deseja entregar-se à fantasia. Democratiza-se assim o poder de criar, imaginar, recriar, romper o limite do provável. Sua fundação reflexiva possibilita ao leitor dobrar-se sobre si mesmo e estabelecer uma prosa entre o real e o idealizado. A leitura literária é um direito de todos e que ainda não está escrito. O sujeito anseia por conhecimentos e possui a necessidade de estender suas intuições criadoras aos espaços em que convive. Compreendendo a literatura como capaz de abrir um diálogo subjetivo entre o leitor e a obra, entre o vivido e o sonhado, entre o conhecido e o ainda por conhecer; considerando que este diálogo das diferenças, inerente à literatura, nos confirma como redes de relações; reconhecendo que a maleabilidade do pensamento concorre para a construção de novos desafios para a sociedade; afirmando que a literatura, pela sua configuração, acolhe a todos e concorre para o exercício de um pensamento crítico, ágil e inventivo; compreendendo que a metáfora literária abriga as experiências do leitor e não ignora suas singularidades. Outorgando a si mesmo o privilégio de idealizar outro cotidiano em liberdade, e movido pela intimidade maior de sua fantasia, um conhecimento mais amplo e diverso do mundo ganha corpo e se instala no desejo dos homens e mulheres promovendo os indivíduos a sujeitos e responsáveis pela sua própria humanidade. De consumidores passa-se a investidores na artesania do mundo. Por ser assim, persegue se uma sociedade em que a qualidade da existência humana é buscada como um bem inalienável. Liberdade, espontaneidade, afetividade e fantasia são elementos que fundam a infância. Tais substâncias são também pertinentes à construção literária. Daí, a literatura ser próxima da criança. Possibilitar aos mais jovens acesso ao texto literário é garantir a presença de tais elementos, que inauguram a vida, como essenciais para o seu crescimento. Nesse sentido é indispensável a presença da literatura em todos os espaços por onde circula a infância. Todas as atividades que têm a literatura como objeto central serão promovidas para fazer do País uma sociedade leitora. O apoio de todos que assim compreendem a função literária, a proposição é indispensável. Se é um projeto literário é também uma ação política por sonhar um País mais digno.” Texto lúcido, inteligente, inspirador. Tudo para dar certo e não deu, ainda. Tudo para fruir e mudar o Brasil que somos. Morre o líder, morre a ideia!? Nunca.
João Scortecci
DEPÓSITO LEGAL: PRESERVAÇÃO E FORMAÇÃO DA COLEÇÃO MEMÓRIA NACIONAL / JOÃO SCORTECCI
Foi o advogado mineiro Affonso Penna (Affonso Augusto Moreira Penna, 1847 – 1909), quando no cargo de Presidente da República, de 15 de novembro de 1906 a 14 de junho de 1909, quem assinou o Decreto nº 1.825, de 20/12/1907, que dispõe sobre a remessa de obras impressas à Biblioteca Nacional do Brasil. Affonso Penna morreu em 1909, antes do término do mandato, e foi sucedido por Nilo Peçanha. O Decreto nº 1.825, publicado no Diário Oficial da União, em 22/12/1907, página 9.148, da Coleção de Leis do Brasil, batizado de “Depósito Legal”, dispõe sobre o envio à Biblioteca Nacional de um exemplar de todas as publicações produzidas em território nacional, acrescentando-se “por qualquer meio ou processo”, segundo a Lei nº 10.994, de 14/12/2004, que revoga o Decreto nº 1.825, de 1907.
Relendo o Decreto nº 1.825, de 1907, encontrei algumas curiosidades: “Os administradores de oficinas de typographia, lithographia, photographia ou gravura, situadas no Distrito Federal e nos Estados, são obrigados a remeter a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um exemplar de cada obra que executarem”. Na época, não existia oficialmente a figura do editor, hoje responsável pela remessa prevista no decreto. No parágrafo IV, lê-se: “Quando nos objetos não estiver declarada a sua significação o seu preço de renda (preço de capa) e o número de exemplares de que a edição constar (quantidade de exemplares impressos por edição), todas essas indicações deverão acompanhar por ocasião de sua remessa”. E – pasmem, eu não sabia – no Artigo 4º, lê-se: “Os objetos remetidos a Biblioteca Nacional, em observância a esta lei, transitarão pelos Correios da República com isenção de franquia e gratuidade de registro”. E, por fim, não menos interessante, no Artigo. 5º, lê-se: “A Biblioteca Nacional publicará regularmente um boletim bibliográfico que terá por fim principal registrar as aquisições efetuadas em virtude desta lei”. No Artigo 2º da Lei nº 10.994, de 14/12/2004, assinada pelo então Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, aparecem as figuras do editor, pessoa física ou jurídica que adquire o direito de reprodução gráfica da obra, e do impressor, pessoa física ou jurídica que imprime obras, por meios mecânicos, utilizando suportes vários. O Artigo 5º – confuso e que já deu muito pano para manga – atribui erroneamente aos “impressores” a obrigatoriedade do Depósito Legal. O termo “impressor” se refere, de fato, ao editor, aquele responsável legal pela edição da obra e pelo direito de autor, que contrata uma oficina gráfica para executar o serviço de impressão. Para simplificar o entendimento, basta observar a edição de um livro eletrônico – e-book –, em que não existe a figura do gráfico/impressor. Fica claro, então, o entendimento sobre a quem cabe a obrigatoriedade. No parágrafo II do Artigo 5º, pode-se observar, também, o mesmo raciocínio: quem é o proprietário da edição, responsável pela comercialização dos livros no mercado? É o editor, não o impressor gráfico, que é um prestador de serviço. E, por fim, no texto da Lei nº 10.994, de 14/12/2004, desapareceu o Artigo 4º da Lei 1.825, de 1907, em que se lia: “Os objetos remetidos a Biblioteca Nacional, em observância a esta lei, transitarão pelos Correios da República com isenção de franquia e gratuidade de registro”. Vale o escrito ou “dar um perdido”, gíria que significa desaparecer ou se esquivar de algo ou de um compromisso, sem dar explicações, prática comum, hoje, dos Correios da República. O serviço de “isenção de franquia e gratuidade de registro”, mesmo insignificante economicamente, mostra o quanto o livro anda esquecido, desprestigiado e politicamente “abandonado”.
Não nos esqueçamos, nunca, da importância do livro, como fonte exponencial de conhecimento e cultura, ferramenta simples, eficiente, insubstituível e democrática. O Depósito Legal – importantíssimo – tem o objetivo de assegurar a coleta, a guarda e a difusão da produção intelectual brasileira, visando à preservação e à formação da Coleção Memória Nacional. Aqui cabe a máxima: "Um povo sem memória é um povo sem história".
João Scortecci
SARAMAGO E A CEGUEIRA DA ARTE DE ESCREVER / JOÃO SCORTECCI
Lendo a biografia de escritor português Saramago (José de Sousa Saramago, 1922 - 2010), Prêmio Nobel de Literatura (1998), autor do livro Ensaio sobre a Cegueira (1995) e outros, encontrei no seu endereço na Internet (josesaramago.org), algo, que até então, desconhecia, o significado da expressão fulano tem “habilitações literárias”: sabe ler, escrever e contar! Interessante. Sobre a obra “Ensaio sobre a Cegueira”, história da epidemia de cegueira branca numa cidade, declarou: "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São mais de 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." Saramago - planta herbácea, cujas folhas, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres – sobrenome incluído ao “José de Sousa”, por própria iniciativa do funcionário do Registro Civil, de como a família era conhecida na aldeia, escreveu, sobre a arte de escrever: “Dificílimo ato é o de escrever, responsabilidade das maiores. (…) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias (…)”. Conhecido por não gostar de pontos, parágrafos, travessões e capítulos, declarou: “Gostaria de não interromper nunca a minha escrita, nem com sinais de pontuação nem com capítulos, que tudo fosse simultâneo, o mesmo que ocorre com a realidade: o carro que passa, o fotógrafo que faz uma foto, o vento que mexe os galhos.” José de Sousa Saramago faleceu em 18 de junho de 2010, aos 87 anos de idade, em Tías, Província de Las Palmas, Canárias, Espanha. Através da escrita, tentamos dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso. Algo assim.
João Scortecci
NÃO TRAGO NADA, NADA MAIS QUE A MINHA POESIA / JOÃO SCORTECCI
Já pratiquei heteronímia. Aqui confesso, sem medo ou vergonha. Deixei de ser réu primário ainda na adolescência e já tenho – quase – 70 anos. Eu o matei sem dó. Foi no braço. O moço – bem mais jovem do que eu – andava chato, fazendo muitas perguntas, tirando o meu sono, querendo atenção além da conta. Um literato intruso. Eu então – numa manhã de sol escaldante – esfolei-o vivo. Bati sem dó. Heterônimos nunca mais! Ele se chamava Ricardo Porto. Era popular nas redes sociais, tinha perfil, e-mails e até biografia. Os heterônimos literários constituem uma personalidade: conjunto complexo e único de características psicológicas que definem como uma pessoa pensa, sente e age, influenciando sua individualidade e as interações com o mundo. Antes de matá-lo – indeciso, talvez – escrevi para o Fernando Pessoa e perguntei sobre sua relação íntima com o Álvaro de Campos. Não deveria: eu sei. Depois que enviei a missiva, arrependi-me, profundamente. Feito estava! Ando lendo o livro “Deixa pra lá - A teoria 'Let Them' ” (Robbins, Mel e Robbins, Sawyer, Best Seller, 2025) e lá aprendi como parar de desperdiçar energia com o que está fora do meu controle e redirecionar o foco para o que realmente importa: Eu! Matei-o, então. A resposta de Pessoa – improvável – chegou. Um bilhete: “Fui como ervas, e não me arrancaram.”. Assinado A.C. Levei o bilhete – e o envelope junto – para uma amiga que conhece profundamente a obra de Fernando Pessoa. Ela olhou, cheirou a carta, o envelope, consultou a caligrafia, o remetente e sentenciou: “Quem escreveu o bilhete não foi o Pessoa, foi o Álvaro de Campos!”. “Isso é possível?”, quis saber. Minha amiga – que pediu para não ser identificada – respondeu: “Sim”. A heteronímia é uma doença cruel, perversa, maligna. Foi até a estante e trouxe o poema abandonado em viagem: “Venho dos lados de Beja. / Vou para o meio de Lisboa. / Não trago nada e não acharei nada. / Tenho o cansaço antecipado do que não acharei, / E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro. / Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto: / Fui como ervas, e não me arrancaram.” Viu e disse: “No momento de responder a sua carta, Pessoa estava possuído, tomado, abduzido. Foi o Álvaro de Campos que assinou a carta!”. Sorte a minha: matei Ricardo Porto sem dó, no melhor do sol escaldante. Digo sempre: venho dos lados do Ceará. Não trago nada, nada mais que a minha poesia. E chega!
João Scortecci
CHARLES BAUDELAIRE E O CATIVEIRO DO POETA / JOÃO SCORTECCI
Maldito cativeiro inacabado! Disse-me: "Faltou-me o tempo que não tinha!". O poeta francês Baudelaire (Charles-Pierre Baudelaire, 1821 – 1867) morreu no dia 31 de agosto de 1867. É considerado um dos precursores do simbolismo, movimento literário da poesia e das outras artes que surgiu na França, no final do século XIX, como oposição ao realismo, ao naturalismo e ao positivismo da época. O seu livro "Les fleurs du mal" ("As flores do mal", 1857) é considerado um marco da poesia moderna. A obra, considerada na época imoral, foi atacada violentamente pela imprensa, censurada pela justiça, multada – cabendo ao escritor, 300 francos, e à editora, 100 francos – e foi recolhida sob acusação de insulto aos bons costumes. E mais, seis poemas de "As Flores do Mal" tiveram de ser suprimidos da publicação, condição sem a qual a obra não poderia voltar a circular. Foram eles: "O ideal", "Hino à beleza", "O perfume exótico", "O cabelo", "Um fantasma" e "O gato". Na solitude do espírito, resfolegou: "Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão!". Uma nova edição, acrescida de 35 poemas, foi publicada em 1861. E somente em 1924, ganhou edição completa, com os seis poemas censurados. Baudelaire, pôde, então, deixar o maldito cativeiro. Em 31 de maio de 1949, 92 anos após sua morte, a Sociedade dos Homens de Letras, num processo diante da Corte de Cassação – tribunal de alta instância – reabilitou Charles Baudelaire e seus editores. Baudelaire morreu de sífilis, em Paris, aos 46 anos de idade, sem a realização em vida do projeto de uma edição final de "As flores do Mal", como era o seu desejo. Escreveu: “Ah! pobre! O veneno e o punhal disseram-me de ar zombeteiro: Ninguém te livrará afinal de teu maldito cativeiro.". E nele, espírito maldito, voou livre, no rabo do gato, descabelado, perfumado, imortal fantasma, no Jardim das Flores do Mal. E lá está.
João Scortecci
AS ROSAS DO JARDIM DE CARLITO MAIA / JOÃO SCORTECCI
O publicitário Carlito Maia (Carlos Maia de Souza, 1924 – 2002) nasceu na cidade de Lavras, região do Campo das Vertentes, estado de Minas Gerais. Dizia sempre: “Vim ao mundo a passeio, não em viagem de negócios”. Mudou-se para a cidade de São Paulo, no início dos anos 1930, e se tornou um dos mais conhecidos publicitários do País. Carlito Maia foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, e autor dos slogans "Lula-lá", "OPTei" e “Sem medo de ser feliz”. Segundo seu depoimento, foi: moleque, lavador de xícaras de café, rebelde, office-boy, contestador, reservista de 2ª categoria do Exército Brasileiro, antifascista, sargento da Força Aérea Brasileira, boêmio, despachante policial, picareta, corretor de seguros, "clochard" – pessoa que vive em meio urbano sem trabalho nem domicílio –, ajudante de despachante aduaneiro, "bon-vivant", tradutor público juramentado... Em 1954, ingressou na Escola de Propaganda do Museu de Arte Moderna. Trabalhou nas agências McCann-Erickson, Atlas, Norton, Alcântara Machado, Magaldi, Maia & Prosperi, P. A. Nascimento, Estúdio 13, Esquire e, finalmente, na Rede Globo, onde permaneceu por mais de 20 anos. Em 1978, foi eleito Publicitário do Ano. Entre suas máximas, figuram: “Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito.”; “Brasil? Fraude explica”; e “Nós não precisamos de muitas coisas, só uns dos outros”. São dele também as expressões “Tremendão”, “Ternurinha”, “Jovem Guarda” e “É uma brasa, mora!”, esta usada pela primeira vez como título de um show do cantor e compositor Roberto Carlos. Carlito Maia se notabilizou por enviar flores para uma infinidade de estreias de espetáculos teatrais, lançamentos de livros e vernissages. Recebi o meu primeiro buquê de flores, belíssimo e inesquecível, no ano de 1987, quando do lançamento do livro de poesias "A morte e o corpo", e o segundo e último, em 1989, no evento de lançamento da "Antologia Poética de Pinheiros", volume I, na Scortecci Editora na Galeria Pinheiros, 1704, loja 13. Em sua homenagem, foi criado, em 2000, o Troféu Carlito Maia de Cidadania, que premia pessoas que desenvolvem ações sociais em prol da cidadania e na luta pelos direitos humanos. Carlito Maia faleceu no dia 22 de junho de 2002, aos 78 anos de idade. Na minha vida de livros, no poema sem-fim, reescrevo, sempre, a sua melhor “deixa”: “Evite acidentes, faça tudo de propósito!” Assim seja!
João Scortecci
MENOTTI DEL PICCHIA E A BATALHA PELO LIVRO / JOÃO SCORTECCI
Menotti Del Picchia (1892 – 1988), na Revista PAN – Semanário de Leitura Mundial – Ano II – número 4 – 16 de janeiro de 1936 – página 15, coluna: “O Imperativo da Hora – Modernizar-se ou Perecer”: “O maior inimigo do livro brasileiro é o próprio governo federal. A ele se deve a falta de difusão do único elemento de progresso e de cultura: o livro. Talvez o governo federal não seja um culpado consciente. Talvez não passe de um sono que dormiu e foi embrulhado pelos espertalhões negocistas que superabundam no país. A razão de justificarmos o governo reside no fato de não podermos compreender que o poder público de uma nação possa contribuir para embaraçar a expansão do livro. Seria julgá-lo criminoso demais ou inepto demais. O fato é que, mercê da legislação federal criando o truste do papel brasileiro, milhões de crianças nossas são prejudicadas em benefício da ganância de um grupinho de negociantes sem entranhas. O papel nacional – o pior papel do mundo – é relativamente ao nosso padrão de vida – o mais caro do mundo. Tivesse o governo derrubado a barreira alfandegária que torna impossível a importação de papel estrangeiro e então o problema da cultura nacional estaria automaticamente resolvido (...)”. Menotti Del Picchia foi colunista colaborador da Revista PAN (1935 – 1945), Semanário de Leitura Mundial, do editor e gráfico José Scortecci (1902 – 1988), avô materno do editor e gráfico João Scortecci.
João Scortecci
ALBALAT E A ARTE DE ESCREVER / MARIA MORTATTI
No final do século XIX, o escritor, jornalista e crítico literário francês Pierre Marie Antoine Albalat (04.02.1856 – 21.09.1935) resolveu iniciar a publicação “do que tinha aprendido por si só”. Era já autor de livros de poesia, contos, romances e ensaios de crítica literária, secretário da direção do Journal des Débats e amigo de grandes escritores franceses de seu tempo. Entre 1899 e 1905, teve publicados pela editora francesa Armand Colin, quatro “manuais práticos e técnicos” de escrita literária que se tornaram clássicos do gênero: L’art d’écrire enseigné en vingt leçons (A arte de escrever ensinada em vinte lições) (Armand Colin, 1899); La formation du style par l’assimilation des auteurs (A formação do estilo pela assimilação dos autores) (1901); Le travail du style enseigné par les corrections manuscrites des grands écrivains (O trabalho do estilo ensinado pelas correções manuscritas dos grandes escritores) (1903); Les ennemis de l'art d'écrire. Réponse aux objections de MM. F. Brunetlère, Emile Fagaet, Adolphe Brisson, Rémy de Gourmont, Ernest Charles, O. Lanson, Pélissîer, Octave Uzanne) (Os inimigos da arte de escrever. Resposta às objeções de ...) (1905). Recebeu por duas vezes o Prix Saintour: em 1904, por Le Travail du style ...; e, em 1914, por Comment il faut lire les auteurs classiques français.
O LEITOR DE LIVROS E O LEITO DE MORTE / JOÃO SCORTECCI
O leitor de livros é um sujeito estranho. Diferente? Talvez. Esquisito. Fora do padrão. Algo assim. No dicionário, a palavra “padrão” significa “modelo a ser seguido”. Confesso: não gosto do seu significado. Acho maçante, tedioso e enfadonho. Meu avô paterno dizia, sempre: “’Quem balança o rabo é cachorro!”. Desconfio de tudo que é padrão, definitivo, fechado no quadrado. Mas a palavra padrão serve – na falta de outra melhor – para definir tudo que um leitor não é. Ponto. Salvei o arquivo na área de trabalho e lá ficou. Hoje, preparando uma apresentação para uma palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), sobre o leitor de livros e o hábito de leitura, resgatei o texto. Quem guarda tem! Salvei-o do lixo! Resmunguei. Na verdade, foi ele – pacientemente – que me salvou. Estranho. Ou melhor: esquisito! Conheço leitores. Muitos. Minha profissão de editor e gráfico ajuda. Faz parte! Minha mãe Nilce foi a primeira leitora voraz que conheci. Minha avó materna, Maria Aparecida, um dia, contou-me o segredo: “Apagávamos as luzes do quarto e ela, escondida, acendia uma vela!”. Risos. Li e reli o que já havia escrito. Dá para aproveitar! Foi o que fiz e aqui estou. Nas duas últimas bienais do livro de São Paulo (2024) e do Rio de Janeiro (2025), o público compareceu, prestigiou e entrou, literalmente, na fila de autógrafos. Ambas foram um tremendo sucesso! Um amigo livreiro, no pé do ouvido, confessou: “Já imaginou esse público todo visitando as livrarias?”. Risos. Seria o máximo, sussurrei pensativo, algo fora do padrão! Aqui com os meus encadernados: por que esse público todo de leitores, compradores de livros, não frequenta as livrarias? Mistério. Juro que não sei. Já escutei mil explicações, mas, até agora, nenhuma razão fora do padrão. Fechei, então, o arquivo e o abri novamente. Releitura. Corrigi um erro de espaço, apaguei um trema que não existe mais e me perdi, no silêncio das razões, refletindo sobre o que o amigo livreiro havia me dito ao pé do ogro das palavras. O leitor de livros é um sujeito feliz e estranho. Acende velas, conversa com o imaginário e – vez por outra – dorme amasiado com um livro no leito de morte.
João Scortecci
O TRAVESSÃO E O SINAL DA BESTA / JOÃO SCORTECCI
O travessão é um sinal de pontuação. Uma ponte! Representa conexão, superação de obstáculos, encontros. Simbolismo de desejos, sonhos, possibilidades. Segundo o mestre Evanildo Bechara (1928–2025), autor da "Moderna Gramática Portuguesa" ele serve para substituir vírgulas, parênteses, colchetes, assinalar uma expressão intercalada, indicar uma mudança de interlocutor num diálogo — ou denotar uma pausa forte. Mil e uma utilidades! Eu uso e abuso — exageradamente — dos travessões. Gosto deles! Andei conferindo as minhas poesias e os meus últimos textos — de 2022 pra cá — e notei que eles — os travessões — fazem parte da minha escrita diária. Minhas crônicas, na maioria, publicadas nos volumes da coleção “Menino tipográfico e outras histórias” estão repletas de travessões, de dois pontos, interrogações e exclamações. Uso, cada vez menos, parênteses — mais em datas de nascimento e morte —, nada de divisão em parágrafos, nada de ponto e vírgula e nada de reticências. Lendo sobre Inteligência Artificial — sobre a marca da besta — dos rastros deixados pelos robôs, o travessão — ele mesmo — está na berlinda. Diz a matéria: “Usuários experientes, estudiosos, que conhecem e usam a ferramenta, afirmam que o travessão seria um sinal claro de que um texto foi escrito por um ‘chatbot’“. Afirma, ainda, que as ferramentas tendem a usar frases de transição como “além disso”, “por outro lado” e “em conclusão” de forma sistemática e padronizada. Listou, por fim, 13 itens — dicas relevantes, talvez — a serem observados. São elas: “Ausência de opiniões ou ponto de vista, formalidade excessiva, tom consistente e impessoal, excesso de polidez, estrutura previsível, frases muitos longas, poucas variações e repetições de palavras, falta de erros gramaticais naturais, ideias repetidas, falta de profundidade em tópicos mais complexos, uso de exemplos genéricos e desconexão cultural e contextual.” Ponto. Aqui com os meus travessões, com as minhas travessias, as minhas ilhas, que povoam o meu universo de estrelas: assim fica difícil navegar! Pergunta: “É preciso?” No rádio, o jornalista esportivo Dirceu Marchioli — o Dirceu Maravilha — resfolega: “Eu quero é mais!”. Gosto dele: mesmo sendo um corintiano — sem H. Volto, então, para o travessão, para o sinal da besta. Além disso, por outro lado, em conclusão, respondo-me: viver não é preciso?
João Scortecci
ERA UMA VEZ… OS CONTOS DE FADAS / MARIA MORTATTI
A expressão “era uma vez…” convida leitores e ouvintes – crianças, jovens, adultos e idosos – a adentrar o mundo da imaginação. Conhecida e utilizada para introduzir histórias orais e escritas, hoje mais frequentemente as destinadas a crianças, a expressão indica tempo propositalmente vago e impreciso, como forma de marcar o caráter ficcional da narrativa, convidando o leitor/ouvinte a soltar a imaginação.
Em língua francesa, registra-se o uso da expressão, pela primeira vez, pelo escritor e poeta Charles Perrault (1628–1703), no conto “Les souhaits ridicules” (“Os desejos ridículos”), de 1694, incluído na edição de 1871 de sua obra mais famosa, Histoires ou contes du temps passé, avec des moralités (Histórias ou contos do tempo passado com moralidades), conhecidos como Les contes de la mêre l'Oye (Contos da mamãe Gansa).
A expressão “era uma vez” e suas variantes, como “houve um tempo”, tornaram-se fórmula e chave mágica também utilizada por outros escritores daquela época, como Madame d'Aulnoy, na França, e do século seguinte, como Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, na França, Dorothea Viehmann (1755–1815), na Alemanha – a contadora de histórias que se tornou fonte de referência para os famosos contos dos irmãos Jacob Ludwing Carl Grimm e Wilhelm Carl Grimm – e Hans Christian Andersen, na Dinamarca.
Em língua inglesa, a expressão correspondente “once upon a time” e variantes têm origem no século XIV, com o poema “Sir Ferumbras”, da canção de gesta – poema épico medieval francês, celebrando os feitos de heróis e escrito para ser declamado – sobre a época do rei Carlos Magno, e com The Canterbury Tales do escritor e filósofo inglês Geoffrey Chaucer. Indicam, ainda, que a expressão como a conhecemos existia desde cerca do ano de 1600, tendo sido consolidada pelas narrativas de Perrault, seguido dos irmãos Grimm e de Andersen, alcançando rápida popularidade e tradução em outros países. E há também os que indicam a existência de histórias similares há mais de 6 mil anos.
Assim nasceram os contos de fadas…
Ao reunir e dar forma literária a narrativas orais na primeira edição, de 1697, de Contos da mamãe Gansa, Perrault inaugurou também um novo gênero literário e sua denominação, “contos de fadas” – histórias fantásticas contendo fadas (do latim “fatum”, que significa destino, fatalidade, fado), seres imaginários, geralmente mulheres com poderes sobrenaturais e mágicos –, expandindo seu alcance para outros públicos, além dos salões parisienses onde eram contadas para entretenimento de adultos. Posteriormente se tornaram, junto da expressão “era uma vez”, características de narrativas para crianças.
Por precedência cronológica, porém, outros estudiosos atribuem à poetisa e tradutora francesa Marie de France as primeiras histórias com fadas, em sua obra Lais, coletânea de 12 poemas narrativos, escritos entre 1160 e 1215. Outros, ainda, atribuem a origem da expressão “contos de fadas” à escritora Marie-Catherine Le Jumel de Barneville, Baronesa d'Aulnoy, que, em 1690, inaugurou esse gênero literário na França, usando a expressão “Contes de fée”, no conto “L’Île de la Félicité” (“Ilha da felicidade”) contido no romance Histoire d’Hypolite, Comte de Duglas.
Nos anos posteriores, aproximadamente 90 contos de fadas foram publicados por escritores e escritoras, como Gabrielle-Suzanne Barbot, na França. Nas décadas finais do século XVII, diminuiu consideravelmente a publicação desse gênero literário. Perrault passou a escrever para crianças, amenizando passagens de terror e incluindo mais elementos maravilhosos, como fizeram depois os irmãos Grimm e, de certo modo, Andersen, cujas histórias nem sempre têm entrecho ou final feliz.
A história é antiga e nem sempre são consensuais as reivindicações de paternidades e maternidades, denominações e desdobramentos. No entanto, “era uma vez” e “contos de fadas” se tornaram, mais do que fórmulas/clichês, chaves mágicas de matrizes literárias clássicas, com inumeráveis versões escritas, orais, cinematográficas e em mídias contemporâneas, além de inumeráveis estudos e interpretações, como em The uses of enchantment: The meaning and importance of fairy tales (1976) (Psicanálise dos contos de fadas), do austríaco Bruno Bettelheim, e Морфология сказки, (1928) (Morfologia do conto maravilhoso), do russo Vladimir Propp.
E continuam convidando leitores e ouvintes a se deixarem encantar pelo mundo da imaginação, para deleite e satisfação da necessidade humana de fantasia, direito humano básico, nas palavras do crítico literário Antonio Candido.
Maria Mortatti
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Publicação original: ‘Era uma vez… os contos de fadas’: a origem ancestral das expressões que despertam a imaginação das crianças. The Conversation Brasil, 13 de junho de 2024. Disponível em: https://theconversation.com/era-uma-vez-os-contos-de-fadas-a-origem-ancestral-das-expressoes-que-despertam-a-imaginacao-das-criancas-231121
ROLAND BARTHES E O PRAZER DO TEXTO: É ISSO! / MARIA MORTATTI
Não só as da infância. Uma das experiências recentes de leitura me fez lembrar dessa constatação, de quando e por que li os primeiros volumes de À la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido), de Proust, e dos lugares e dias de tantas outras leituras de que me lembrei quando o li. Uma, em especial, veio-me involuntariamente à memória, a do livro O prazer do texto (Le plaisir du texte), do escritor e crítico literário francês Roland Barthes (12.11.1915- 26.03.1980), com tradução brasileira de J. Guinsburg (Perspectiva, 198?). Li-o um ou dois anos antes do opúsculo de Proust. Foi indicado por um professor que eu admirava. O exemplar era emprestado da biblioteca da faculdade.
Em um sábado à noite, talvez do ano de 1987, enquanto esperava o horário para um prazeroso passeio com os amigos, sentei-me na poltrona da sala, com lápis e papel ao lado, e comecei a ler como quem apenas se ocupa de uma distração. Aos poucos, porém, fui penetrando no texto. Levantei-me. Fui para cadeira da mesa de jantar. Aprumei-me. Comecei a anotar. Tudo era descoberta. Desisti do passeio, apesar da insistência dos amigos. Retomei a leitura e assim fui até a madrugada. Na memória ficou uma imagem: o prazer do texto, o prazer de desabotoar o primeiro botão da blusa... Não sei se as palavras de Barthes eram exatamente essas, mas assim gravei na memória.
Anos depois, comprei um exemplar da tradução brasileira. Localizei o trecho. As palavras eram parecidas, mas o sentido se renovou prazerosamente. E assim foi numa outra noite de sábado, quase quatro décadas depois, quando escrevia o prefácio para o livro Cahier de poésie 3 / Caderno de poesia 3, de Michel Thiollent (Scortecci Editora). Reli o livro de Barthes e lá encontrei minhas anotações de antigos momentos de leitura e dos pequenos pormenores que fizeram renascer conexões intertextuais infinitas e angustiantes com outros autores, com “a desenvoltura que faz com que o texto anterior provenha do texto ulterior”, como as macieiras normandas de Gustave Flaubert que Barthes lê a partir de Proust.
Aquele primeiro botão de sentido cintilou novamente. O prazer do texto é a intermitência. O que seduz é a cintilação da pele entre duas bordas. Assim é a descoberta da relação erótica com os livros que nos escolhem ou escolhemos. Assim foi também com esse livro de Barthes, que despertou em mim o desejo de conhecer sua vasta e sedutora obra. O que faz de um escrito um texto é sua vontade de fruição, seu brio, o ponto onde ultrapassa a tagalerice e arranca do leitor, não um juízo de valor – é bom ou ruim –, mas um juízo de fruição estética: “É isso!”. “O texto de prazer é Babel feliz”.
Maria Mortatti
EDITH WARTHON, PRESENTE DE MR. DURHAM / MARIA MORTATTI